20/04/2011

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16h

06/03/2011

Como de fato se apresentam de modo idiossincrático um ou dois raios de luz por dentro da copa das árvores; sem dúvida que aqui elas cresceram em grande número e no vasto tapete verde escuro que teceram, já um tanto esmorecido, penetram como em cavernas os raios de luz, os quais não sem indiscrição corrompem isolados a homogeneidade desse amplo e espesso tapete; pode ser nosso fenômeno assimétrico de predileção.

Anna Kariênina

16/02/2011

– Penso… se há tantas cabeças quantas são as maneiras de pensar, há de haver tantos tipos de amor quantos são os corações.

“Dos pretendentes a Morte eles ambos, ali, combinaram.
Voltam, depois, para a bela cidade. A saber, Telêmaco foi
antes do pai, pois Odisseu se atrasou por vontade.”

Este “a saber” mantém, em virtude da coerência, a forma lógica da explicação ou da afirmação, enquanto o conteúdo da frase, uma declaração puramente expositiva, não é coerente com a frase anterior. No minúsculo contra-senso da partícula de coordenação, o espírito da linguagem narrativa, lógico-intencional, colide com o espírito da representação sem palavras, da qual se ocupa essa linguagem, e assim a própria forma lógica da coordenação ameaça enviar os pensamentos que nada coordenam, e que na verdade não são pensamentos propriamente ditos, para o exílio de uma região onde a sintaxe e a matéria se perderam uma da outra. A matéria reforça sua supremacia ao mentir para a forma sintática que pretende abarcá-la.

Diálogo

02/02/2011

– Ok, estamos ambas num mesmo recinto sem fumaça. Para onde foi a fumaça. E por que ela precisa estar aqui, o que você quer dizer com ausência de fumaça.

– Não sei, só precisei iniciar e então escolhi ao acaso um tema. Ah, sim, tudo bem.

– Estão escrevendo ali um monte de frases de efeito, cuidado para não cair no mesmo buraco, a narrativa pode seguir sem isso. Você fica tanto tempo sem escrever e olha o que surge das cinzas; nada surge são apenas as cinzas. Não me venha com autocompaixão.

– Como logo toda fumaça se esvaiu e nós duas somos as duas únicas presenças da pequena sala, algo como uma tensão começa a nos envolver, presas sem objeto de diálogo. Sem deduções possíveis, ambas estamos quietas como baús e nada sai de nós, estamos preenchidas pela determinação – e isso já diz algo, tudo pode dizer algo até a exaustão – em silenciar. Ambas sabemos o quanto não é possível nos abrirmos uma para outra, nossos baús então permanecem fechados. O que sobra para quem narra é dizer essas coisas, contornar a superficialidade das coisas, tocá-las de um modo escorregadio. Nada de profundidade, por favor, já estamos fartas disso (é por isso que permanecem cerradas em seus baús?).

– Frases de efeito.

– As dúvidas também não têm seu lugar, já para fora com a fumaça. Sem objeto de discussão, e ainda com o que escrever. Mas o que é escrever, é só a superfície, nada encontrariam aí se não fosse a escrita. Perguntam por cigarros. (Já estou captando suas características, são obsessivas e ansiosas, querem retratar com os cigarros). Cigarro é uma presença estúpida na narrativa. Todos já sabem e pior ainda é se irritar com isso. Ai, me irrito tanto, tanto. Cuidado para não exagerar nos advérbios. Eu já sei! Mas ela, em minha frente, dita a regra de fingir; as duas saem incólumes.

– É, muito contato traz a exposição, não tem jeito, é preciso só criar imagens e se esconder por trás delas.

– Algo como um repórter as espreita, estou certa disso. Estou, sim. Espere, vamos voltar pois daqui já dá para tirar muitas alegorias, alguém vai citar Beckett para lamber seu saco ou até mesmo o próprio saco.

(prefiro ficar de fora, só estou observando).

– Olha aquele ali, está só observando e se acha superior. Quem só observa se acha superior, mas na verdade não se implica, então é certo que é covardia.

(ele tem certezas demais esse aí não vai muito adiante do próprio círculo)

– Cada um determina a própria personalidade como quer, coesa, perturbada, dissonante, e então pode seguir a vida, alguns não determinam e deixam os outros determinar. Mas o problema é que os outros sempre determinam. Tem razão, mesmo quando não deixam.

– Então, depois disso elas podem fumar um pouco, já que estamos predispostos a arejar esta relação. A sala é pequena e, sim, tanta presença para lidar, uma única presença é muito, ainda mais se não conversam tanto o silêncio é para poucos. Há mesmo muitos lugares para ir, precisamos nos ater a um e então o que permanece à margem pode ser excluído. Escolher sempre foi difícil para mim, mas também penso que o silêncio é para poucos. Conversas, conversas, conversas, e as maldades se amontoam todas no silêncio.

– Se você quer ser levado a sério, sim. Até as letras precisam estar na ordem, quem dirá os pensamentos. Já estou organizando, agora vá embora porque você está me atrapalhando. Tudo bem.

(quem disse isso? cochilei por alguns segundos)

– Frases de efeito e alegorias, que piada essa sua pretensão. Grande coisa, a autocrítica está aí, circula, nenhuma surpresa, nada de novo, e quem disse que

– Já chega, já é suficiente essas duas presenças e nem nelas dá para prestar atenção, a escrita nos leva para outros lugares, mesmo, algo como um controle, mas e então, quer ou não quer é pegar ou largar. Está bem, então, esqueçamos e voltemos à tradição estou mais confortável sem inventar, trabalhar, desenvolver, intervir, recompor, ensinar ou senão retroceder ou mesmo ambas. Claro, sem dúvida que são possíveis, todas essas coisas são os parâmetros com os quais lidamos diariamente, é claro que a inconsciência está aí e sabemos. É, inclusive, o que as atormenta (pude voltar às duas personagens dessa narrativa, e o meu devaneio não passa agora de fio condutor! É muita conquista para pouco esforço mas mesmo assim tomo o crédito).

– Eu estou cansando o leitor. Tá bem, vamos tentar um outro dia, os parênteses estão diferenciando demais. Não, por que você termina assim. Ficou clichê, né. Hahaha, ela quer escapar do clichê.

O fenômeno teatral

20/09/2010

Disfarçados (mal ou bem) seria possível andar, agir, todos tão bem, ou eu que percebo mal, dizíamos nossas coisas e palavras, seguros nas raízes. Nos encontrávamos, bebíamos, antes saíamos para o trabalho; casados, flertávamos sem intenções, mas logo o etéreo se firmava na reciprocidade dos olhares e dos sorrisos, seguíamos em frente – aqui caía um pouco do nosso disfarce. E então seria preciso se disfarçar duplamente, triplamente, quantas as camadas.

Mas às vezes o disfarce não poderia caber de todo e, sendo preciso ensaiar mais, perdíamos na andança a dimensão das próprias rédeas. O disfarce é a coberta grande demais, curta demais, esfiapada, não coincide consigo. E mesmo assim serve-se dele como de uma arma, ainda que não se saiba usá-la e à distância de um passo converte-se em mediadora do corpo nos próprios escombros. Pois (a título de metáfora) uma roupa vazia é uma roupa vazia, mas um espírito nu até no espelho ecoa o abismo prévio de sua desimagem.

Nós duas meninas

13/09/2010

Lembrando a ausência o mar escuro o lago escuro, pedras. Estávamos soltas. O ato de acender nossas luzes interiores, se existiu, só que logo apagá-las. Isso quando mergulhávamos de não aguentar mais o calor, não podia afundar a cabeça mas uma não ligava pra isso, e a outra por força do que imitava perdia o medo. A um só tempo refrescando-nos e sufocando-nos, sem duração definida. O dia inteiro a temperatura que nos havia cansado a pele, as pálpebras de chegar a doer a cabeça. Insuportável a desmedida da claridade externa. Tanto ficávamos ali no calor, o dia inteiro expostas, que mergulhar emancipava o tempo. Mas a água espessa. Escalar as pedras, caminhar pelo gramado e correr, sabe, a lama escorrendo grossa pelos nossos corpos e a água escura incrustada como se no lago tivessem derramado óleo, e mataram os bichos de noite. Mas era de dia, e nós sempre apressadas para chegar em casa, a porta sempre fechada. Mãe, mãe. Como se por trás das cortinas escuras ela parasse escondida escutando as meninas batendo na porta, culpando-se pela própria ausência; aliviada por esquecer daquelas filhas. E o calor que secava a lama, o corpo fedia insuportável e o tempo se amontoando em vigas de esquecimento.

A areia da pista, marcada por trajetos anteriores de outros cavalos, dos outros cavaleiros, fornece ao competidor um diário de vencedores e de faltas, recordes, das privações subsequentes, de quedas. Mas nem o cavalo nem quem o monta olham para o chão, apenas deixam suas próprias marcas sobre as quais ainda não se sabe a determinação, e o que me fascina é o risco que tomam a cada salto pois só há o risco. Não existe espaço para o “se”, no hipismo, não se pensa sobre as circunstâncias e nem se hesita; no máximo, alguém sente o cheiro do suor do cavalo. As circunstâncias são já o que ocorre, onde não se sai de si mesmo, e não justificativa para demorar-se, como aquele presente da arte dramática – embora o ensaio aqui não determine (lembrando a seu modo a vida) – para o qual não há outro tempo ou outra reflexão.

Na estação

07/08/2010

Sentado num banco, no patamar direito da estação, sinto o odor forte da fumaça que se aproxima, o trem está perto. Ouço o barulho de tosse, a fumaça espargindo-se na estação, entrando por baixo do meu banco, por entre as vigas de madeira, eleva-se pelo meio de minhas pernas. Olho para o lado mas os meus olhos estão lacrimejantes, imersos como de dentro de uma fornalha. Percebo pelo som que estou olhando para o lado errado, e então viro lentamente a cabeça, agora estou olhando para o lado certo mas não vejo nada, meus olhos se perdem afunilados neste escarcéu. Eu não paro de tossir, o meu pulmão desflora literalmente e o trem chega. As pessoas descem os degraus, uma por uma com suas pernas desnudas ou escondidas, saias de veludo, florido amarelo e pregas empoeiradas, saltos pretos que me perturbam a audição, gastos. Por consequência desta fumaça por entre as pessoas, por entre os casacos, as malas. Estou em pé, tossindo e as pessoas descrevem semi-círculos em minha volta, escondendo-se pois não me reconhecem.

Day 11

01/08/2010

Tolstói,

Eu queria conversar com você para que você me escutasse e, depois de pensar cuidadosamente, desdobrasse minha constituição subjetiva com sua precisão e simplicidade e com o seu modo bonito e russo de ver o mundo, tão diferente do meu – embora eu constantemente me esqueça dessa diferença – e com a sua generosidade. E talvez não por isso, sabe, Liev. Eu gostaria apenas de ter momentos ao seu lado, mesmo que em silêncio ou com você dizendo coisas que não tem nada a ver comigo, mesmo que para ver como são seus olhos ou mesmo que só para te agradecer. Tem vezes que penso assim, um pouco infantilmente, que eu daria algo muito valioso, meu, para poder ter nascido russa no século XIX, como uma de suas filhas. Mas não tem importância… Você é meu pai em muitos outros sentidos.

Da leitora que você constrói, e que também te recria,

Bruna.

Day 1

01/08/2010

Gu,

Eu já escrevi poema e contos e já disse várias e várias vezes o quanto você é o meu melhor amigo. E nem precisaria porque isso já está evidente em todas as nossas conversas e encontros e abraços e risadas que temos que segurar porque estamos num lugar que não pode rir. Eu me sinto muito confortável com você e acho que isso é a qualidade mais insuperável que uma amizade pode atingir – e a nossa já a ultrapassou faz tempo. Nunca se afaste (nem de minha memória).

Bruna

Manão,

você já falou tudo muito bem e com precisão e simplicidade e então eu já fiquei sem ter o que dizer. Mesmo assim uma carta para você, porque cartas são especiais e você e eu sabemos o quão especial é o gesto de dizer algo para nossa pessoa especial (seja lá em qual categoria de especial ela se enquadre), endereçando-nos a ela, pausando para dizer o nome, mesmo que tudo isso silenciosamente. Eu também gosto acima de todas as outras coisas para se gostar (e que entre nós são muitas) o jeito sem defesas com o qual podemos ficar ao lado uma da outra. Dizem que nosso limite é quando começa o outro e que ele nos obriga a mudar. Você é um outro que tem muita coisa parecida, e por isso eu quase nunca hesito em dizer A GENTE, mas mesmo assim é um outro cujo contato me adicionou algumas percepções sobre a vida, e me fez entrar em contato com percepções minhas pela primeira vez, porque até então eu não tinha com quem dizer. E que venham as situações malucas e bizarras e os capitalismos espanhóis ou as vacas e conversas secretas porque o conforto estará sempre próximo.

Manão.

Baiano,

Você é o conforto mais incômodo no meu mundo.

Bru

Day 1 — Your Best Friend (seu melhor amigo)
Day 2 — Your Crush (sua paixão)
Day 3 — Your parents (seus pais)
Day 4 — Your sibling (or closest relative) (seus irmãos ou parentes próximos)
Day 5 — Your dreams (seus sonhos)
Day 6 — A stranger (um estranho)
Day 7 — Your Ex-boyfriend/girlfriend/love/crush (seu ex-namorado/amor/paixão)
Day 8 — Your favorite internet friend (seu amigo da internet favorito)
Day 9 — Someone you wish you could meet (alguém que você gostaria de conhecer)
Day 10 — Someone you don’t talk to as much as you’d like to (uma pessoa que você não conversa tanto quanto gostaria)
Day 11 — A Deceased person you wish you could talk to (uma pessoa falecida com quem você gostaria de conversar)
Day 12 — The person you hate most/caused you a lot of pain (a pessoa que você mais odeia/que te causou muita dor)
Day 13 — Someone you wish could forgive you (alguém que voce deseja que te perdoe)
Day 14 — Someone you’ve drifted away from (alguém de quem você se afastou)
Day 15 — The person you miss the most (a pessoa que você sente mais falta)
Day 16 — Someone that’s not in your state/country (alguém que não está no seu estado/país)
Day 17 — Someone from your childhood (alguém da sua infância)
Day 18 — The person that you wish you could be (a pessoa que voce deseja ser)
Day 19 — Someone that pesters your mind—good or bad (alguém que rode sua mente – pro bem ou mal)
Day 20 — The one that broke your heart the hardest (a pessoa que quebrou seu coração da pior maneira)
Day 21 — Someone you judged by their first impression (alguem que voce julgou pela primeira impressão)
Day 22 — Someone you want to give a second chance to (alguém pra quem voce deseja dar uma segunda chance)
Day 23 — The last person you kissed (a ultima pessoa que voce beijou)
Day 24 — The person that gave you your favorite memory (a pessoa que te deu a sua memoria favorita)
Day 25 — The person you know that is going through the worst of times (a pessoa que voce sabe que vai estar ao seu lado nas piores horas)
Day 26 — The last person you made a pinky promise to (a ultima pessoa pra quem você fez uma promessa)
Day 27 — The friendliest person you knew for only one day (a pessoa simpatica que voce conheceu só por um dia)
Day 28 — Someone that changed your life (alguém que mudou a sua vida)
Day 29 — The person that you want tell everything to, but too afraid to (a pessoa pra quem voce tem vontade de falar tudo, mas tem medo de)
Day 30 — Your reflection in the mirror (seu reflexo no espelho)

Silêncio. Sala de estar escurecida, Ana sentada no sofá. A sala é mobiliada apenas pelos sofás, um tapete sobre o qual há uma mesinha de centro e é rodeada por livros de todos os lados. Num canto há um pequeno bar. Ana aguarda, olhando para os lados mas demonstra um evidente receio de olhar muito, como que envergonhada, não se sabe. Há um cigarro queimando recostado no cinzeiro, e a fumaça torna a cena ainda menos visível.

Bette se aproxima com duas taças, falando alto. Senta-se na poltrona ao lado do sofá onde Ana está sentada:

– Realmente hoje estava difícil de conversarmos, não é? Não íam embora… Nos nossos minutos a sós, a Bruna chegou. Eu não sabia que ela iria ocupar minha sala hoje.

Ana sorri com os lábios fechados, mas não sorri com os olhos. Bette continua.

– Mas e então? Em tom sarcástico. O que você tem de tão urgente a me dizer?

– Ah, não é exatamente urgente. Eu liguei ao invés de mandar um email porque achei que a questão precisava de um pouco mais de expressividade… Foi esse o significado de minha ligação, não foi urgência.

– Bem, querendo ou não o resultado foi o mesmo, não é? Estamos já aqui. Mas estou curiosa… Pausa. As duas sorriem. Bette se levanta, vai até o bar, escolhe demoradamente uma garrafa de vinho. Depois de retirar duas e recolocá-las no lugar, a terceira leva até o sofá e desta vez senta-se no mesmo sofá de Ana, com o espaço do meio separando-as. Enche as taças e, após repousá-las na mesa, retira seu relógio de pulso, colocando-o também na mesa – a câmera se aproxima revelando que são 23h e alguns minutos -, Ana tosse forçosamente, Bette a olha séria e então resolve virar o visor do relógio para baixo. Ana sorri olhando para baixo, mas Bette se conserva séria. Pergunta:

– Você fuma?

– Você já me viu fumando? – pergunta Ana com raiva.

A cena sofre um corte e Bette refaz a mesma pergunta.

Não, não gosto muito de cigarro. Mas não tem problema, estou acostumada com o cheiro, não apague. – Bette diz que sim com a cabeça, sem olhar para o cigarro aceso em cima da mesa. Ana puxa uma mecha de seu cabelo e começa a brincar com ela. A cena conserva-se assim durante alguns segundos.

Bette, de quem é este cigarro? Pergunta, num tom de exasperação contida, como quem solta involuntariamente o que estivera segurando dentro de si. Aponta para o cigarro. A cena sofre um corte, volta para quando ela enrolava a mecha de cabelo nos dedos. Pergunta:

– Você não fuma, não é?

Bette a olha nos olhos durante alguns segundos.

– Espere aí.

Levanta-se, vira à esquerda, entra no cômodo contíguo de onde saíra no início da cena, ouvem-se passos subindo uma escada. Ana permanece parada apenas passando os olhos pela sala até que os repousa sobre a mesa. Devagar estende a mão, pega o cigarro e aproxima-o de sua própria boca. Cheira-o. Depois, coloca-o na boca mas não traga. Ao ouvir os passos que descem, não se incomoda e continua com o cigarro na boca. Bette aparece na porta com um bolo de papéis seguros no braço direito, mas para ao ver o que Ana está fazendo. Ana, obviamente, sabe da presença da outra, porém não move o olhar que se mantém fixo num ponto indefinido, o cigarro na boca. Depois de alguns segundos, olha para Bette, dá uma tragada, solta a fumaça para cima e recoloca o cigarro no cinzeiro. Bette dá meia-volta, barulho de passos subindo uma escada. Novamente, ouvem-se barulhos de passos descendo uma escada. Bette entra na sala e se senta bem ao lado de Ana no sofá, com as mãos vazias.

Se você está curiosa porque demorou tanto? Me deixa com uma sensação de tempo esgotado… Pausa. Tanto faz. Vim até aqui te fazer uma pergunta… Precisava ser pessoalmente. – esta última frase diz num tom de exasperação, como que respondendo de antemão a uma pergunta que não lhe foi feita.

Antes, sou eu quem precisa te fazer uma pergunta. Andei recebendo emails nos últimos dois meses, emails anônimos. Aquele bolo de papéis que trouxe da primeira vez que desci…

– Quando?

– Você viu. No entanto, Ana, decidi de última hora não os mostrar a você. Foi você quem os escreveu.

– Eu sempre assino meus emails, além de que você conhece o endereço. Só uso aquele… Que bobagem precisar entrar nisso, que desagradável para nós duas…

– Não precisa me dizer o que é agradável o que não é. Sou eu quem evita o desagradável desde que começamos. Veja, digo que você os escreveu porque neste email a pessoa me envia seus textos, textos que você publica no seu blog em que a personagem é sempre uma B. Que por vezes parece você mesma, quase sempre parece você mesma…

– Preciso logo dizer o que tenho a dizer, acho que vai esclarecer muito disso para nós e terminar com essa tortura logo.

Bette sorri.

– Pelo contrário, para mim esta conversa tem sido muito agradável…

Toca o braço de Ana e lentamente sobe com os dedos até seu pescoço, arruma o cabelo de Ana. Que permanece imóvel e visivelmente tensa.

– Preciso logo dizer…

A cena sofre um corte e volta na última vez em que Bette reentrara na sala, tendo acabado de se sentar ao lado de Ana.

Então, vamos lá. Diz Bette com um sorriso gentil e demonstrando disposição de ânimo pela voz.

– Você recebeu minhas cartas?

Bette se abala e sua expressão muda ligeiramente para a surpresa.

– Tanta pressa para perguntar isso?

– Não, não é exatamente isso que quero saber…

– Então porque perguntar isso?

– É que eu sempre fui assim, meu pensamento é enevoado. Como se tudo estivesse obscuro por um certo mistério. É quando preciso escrever.

– Para mim?

As duas soltam uma gargalhada alta, riem até perder o ar, a ponto de saírem lágrimas dos olhos. Quando conseguem recobrar a seriedade, Ana começa a contar uma história:

– Hoje, B. – posso te chamar assim? – enquanto fumava recostada na janela do meu apartamento, olhei para baixo. Algumas crianças saíram do prédio para ir ao parque. Espere, vou chegar a algum lugar, tenha paciência. As crianças, para chegar ao parque, precisavam cruzar a quadra que já estava muito escura, era de noite. E então ultrapassaram a quadra correndo porque queriam logo alcançar o parque iluminado. Corriam de medo.

– Estou morrendo de frio. Levanta-se, vai até o cômodo contíguo, volta vestindo uma blusa de tricô. Observando a cena, Ana sorri.

E então pensei… Essas crianças, nós somos como elas, o que falamos é como essas crianças que correm desesperadas para fugir do que se esconde na escuridão da quadra. Nós corremos com as palavras com medo de esbarrar no desconhecido. Não suportamos a ideia de não saber absolutamente do que estamos falando. Como se sustentássemos uma ilusão de que o que dizemos é absolutamente entendido por quem nos ouve, e é impensável para qualquer ser-humano a incompreensão que o segue. Assim como a criança que está na frente, ao olhar para trás, sente medo porque sabe que é seguida mas não enxerga quem a acompanha.

Bette permanece em silêncio, olhando atenta e séria para Ana. As duas se conservam pensativas durante algum tempo. Em algum momento Ana, olhando fixamente para um ponto no meio dos livros, acena com a cabeça, como que dizendo sim ao seu próprio pensamento. Bette olha pela janela.

Já é muito tarde e você ainda não me perguntou o principal.

– Eu quero saber se você recebeu minhas cartas.

Estive muito ocupada. E isso não é o principal, vá logo ao ponto. Diga logo o que quer.

– As coisas estão espalhadas pelas cartas. É muito difícil solucioná-las a partir de uma pergunta.

– Então você está sendo precipitada. Deve esperar mais… Repense e veja se quer que tudo seja exatamente como escreveu nas cartas, olhe um pouco para seu passado e reconstrua-o mentalmente… Tenha paciência, você vai chegar lá.  Lembre-se de nossa conversa. Caso o contrário, nada jamais encontrará o seu sentido. Você teria me feito perder tempo. Nada faria nenhum sentido.

– Sim, estive correndo, mas minha pressa é em dizer as coisas enquanto ainda vivencio o mistério… Como quando você se apaixona e não há lógica, mas você vive mesmo assim. Tira prazer do amor e do mistério e não chega a lugar nenhum. Prefiro dizer as coisas enquanto não vejo o todo. Odeio distanciar-me de mim mesma, mas você, ao mesmo tempo, é essa distância. De todo modo, prefiro isso a encontrar logo o sentido e viver matematicamente.

– É onde está a beleza… Uma pena que não dura. Essa nossa conversa, por exemplo, que você tanto queria mas que na prática não consegue realizar, já deve ter escorrido para fora do tempo e nós nos prolongamos, como restos, como corpos cansados. Mais vinho?

Ana olha para a janela como que recobrando à memória que está muito tarde.

– Sim, por favor.

arejando

17/07/2010

I wrote all the morning, with infinite pleasure, which is queer, because I know all the time that there is no reason to be pleased with what I write, and that in six weeks or even days, I shall hate it.

Eu resguardava meu talvez

e você viria do jardim, ou da sala, ou da porta de alguma sala, e, ao me ver, mudaria de direção por ter me visto, viria sorrindo e dizendo “Oi, B.”, de um jeito sério mas sorrindo. Minhas palavras iriam todas embora nesse momento, o turbilhão amorfo – repentino, conhecido – que faz com que me sumam as palavras – elas vão mesmo embora, somem todas, tudo o que treinei sozinha, falando com uma B. imaginária – assuntos sérios, piadas, comentários e detalhes da minha vida – tudo isto sumiria só porque você mudou de direção para vir conversar comigo, você viria e diria naquele tom de seriedade “Oi, B.”. E então eu responderia, Olá, tudo bem, e você diria sim, e você?, muito bem, só um pouco cansada e enquanto eu falaria sem sentir o mesmo que as palavras, você pegaria a minha mão esquerda, olhando para os meus olhos e sorrindo com a boca e com os olhos, com o corpo inteiro, tiraria a minha mão apoiada no joelho e a seguraria na sua mão direita – seria a primeira vez que eu te sentiria nas mãos, a sua mão quente, a pele firme. Você não apertaria meus dedos, mas conservaria os seus segurando os meus com determinação, como se dissesse (sem palavras): não, fique, não tire a sua mão daqui, continuemos assim de mãos dadas por muito tempo.

E ficaríamos com as mãos dadas, eu, dando forma às impressões (você me aceitava, entendia meus olhos), você, calma, impassível, achando certa graça naquilo tudo, porque “mesmo no silêncio havia graça”, e neste silêncio específico não haveria preocupação com o tempo (se desenrolando, alheio), se está vento, se o frio é um contraste, não nos preocuparíamos com as pessoas que passavam ou se já estávamos de mãos dadas por tempo demais.

(A nuca de B. está suando, sinto um calor insuportável o abafamento deste ar pesado cansando meu corpo, este cheiro).

Tudo isto estagnado e doce, como uma frase estática: em verdade uma pintura, se se atenta para seu espírito. Não houve pincel ou tinta, mas subsiste uma poesia do quadro na longa frase, assim como em nossa conversa, se ela existisse, não haveria palavras ou objetivo – contudo, B., como na aquarela, transluziria, sobreposta ao profundo reconhecimento da doçura, uma poesia dependente dialogando pelos olhos.

B.

Beatles Rockband

17/05/2010

Para Gustavo e mais um aniversário

Entramos na casa e logo no hall de entrada nos deparamos com a cena em que todos tomam banho e se ensaboam, uma vez que está chegando a hora – os mais adiantados secam nas almofadas ao chão. Nós, no entanto, já havíamos tomado banho nas grandes bacias da faculdade, velho costume do século XVIII, embaixo da escadaria (e secado nas almofadas de lá), portanto apenas ficamos observando impacientados as trezentas pessoas que ocupam a pequena sala terminar o seu serviço.

– TERMINEM LOGO! ACABEM COM ISSO! DEIXEM DE LADAINHA!, diz Gustavo.

E de lá do fundo vem uma voz, semelhante no timbre à voz de Dom Sebastião:

– Você engoliu um microfone quando era criança, Gustavo?

Chiquinha desata a chorar. Todos de imediato saem de suas bacias correndo para acalmá-la, inclusive o meu amigo Félix, deixando a água pingar pelo piso de tacos (poderíamos patinar, se houvesse mais espaço), porém, como se trata de exatas trezentas pessoas aglomeradas, nenhuma delas consegue sequer tocar nas lágrimas de Chiquinha, que chora e chora, então nós decidimos organizar as pessoas em duas filas indianas – uma de homens e outra de mulheres, já que podemos realmente comprovar o sexo das pessoas em razão de estarem nuas. Ainda assim a questão não se resolve – a sala continua muito pequena – e as pessoas não cedem à organização (foi na década de 20, ainda lembramos, que desenvolveram o orgulho pessoal e a hostilidade à ordem). Do meio da multidão sai um homem alto e curvado, que por sinal não havia tirado os óculos para tomar banho. (Pausa). Seus óculos escorrem espuma:

– Mas aí é problema!!! É problema, Gustavo!!!!!

E então Gustavo passa naturalmente a imitar os gestos do homem alto e curvado, enquanto este, ao invés de expressar surpresa mediante o inusitado, exclama em tom nostálgico:

– Ah, como era bom no tempo que havia espelhos. Ainda agora me sinto como se houvesse um espelho diante de mim.

Gustavo segura o riso e é quando nos entreolhamos e piscamos um para o outro (nós somos nossos espelhos), e neste momento o homem alto enjoa realmente de nossa companhia e volta para sua bacia, esquecendo-se também de Chiquinha, que ainda chora (ninguém pudera alcançá-la, QUE PENA). E então acabamos por tirar a conclusão inevitável, e fazemos questão de expressá-la em voz alta:

– Papagaio!

Outros murmuram: holy cow! Mas estes, não há dúvidas de que ninguém os ouve em meio à gritaria de Chiquinha e aos papagaios, que agora voam esbaforidos e desajeitados, espalhando suas penas cor de esmeralda, cintilantes como esmeralda, por toda a sala. Finalmente percebemos que tudo isso é muito datado e que não ultrapassaremos, talvez, a regra da efemeridade, mas certamente, como já havíamos criado nossas tradições desde o século XVIII e as reformulado na década de 20, permaneceremos, como uma segunda natureza, aferrados a elas em nossos modos de falar, em nossas lembranças, e em nossa relação com a vida, pois uma vez que se anda em dupla não se desemaranha mais da influência alheia nem em um milhão de anos, nem até o fim da vida. (Pausa). Decidimos aproveitar o momento cheio de vida que nos esperava, ao invés de nós mesmos esperarmos aquelas pessoas terminarem seu banho para cantar parabéns a Gustavo, Chiquinha terminar de chorar, os papagaios terminarem de voar, saímos de uma vez correndo em passos largos – eu perco a dianteira pois minhas pernas são menores – para o andar de cima. Gustavo liga seu rádio no celular e passamos a dançar rockabilly, dançamos rockabilly até às 3 da manhã, uma vez que no dia seguinte, às 10 da madrugada, seremos obrigados a comprar dois pães de queijo acompanhados de um copinho de guaraná com açaí.

Serioja

28/04/2010

“Ele está demorando”, pensou Serioja, se equilibrando na ponta dos pés, com as mãozinhas sujas de terra segurando firme a barra horizontal que atravessava todo o portão. O portão tinha a tendência de querer ser muito alto, com todas as hastes querendo se erguer muito alto. Serioja gostaria de ser mais alto do que o portão, um dia. Mas não agora, porque agora Serioja estava muito impacientado, forçando a cara suada entre as hastes para conseguir alcançar a esquina com seus olhos arregalados de nascença.

O cãozinho de Serioja se colava ao estado de espírito do dono. Sentado em cima das plantas só aparentava tranquilidade, porém abanava a cauda sem parar, o que já desmentia sua tranquilidade. As flores em cima das quais ele estava sentado se despedaçavam, além de que sua cauda abanava uma quantidade surpreendente de terra, tanto que as flores que não foram atacadas pela cauda, ficaram infelizmente soterradas pelos castelinhos de terra que cresciam e cresciam. Olha, se alguém visse essa bagunça ficaria muito bravo e logo mandaria Serioja e o cãozinho irem se lavar. Mas como é que se vai deter a ansiedade do cãozinho de Serioja.

Serioja estava achando aquela demora demasiado longa, estava até sentindo as cócegas pelas mãos de ninguém as quais vinham às vezes ao seu estômago e diziam que logo logo ele não seria capaz de esperar nem mais um minuto. Mas ao mesmo tempo Serioja possuía toda a certeza do mundo a respeito de que não precisaria chegar a esse estágio do desespero, porque tudo acabaria bem como o havia sido durante todos os dias das últimas duas semanas, dos últimos meses, e de todos os anos de sua vida. O mundo havia sempre se configurado muito bem, de modo que não seria preciso se preocupar com alguma ruptura no bom andamento da vida.

“Eu sabia, eu tinha razão!”, pensou Serioja, no minuto em que entreviu o menino careca que devagar aparecia na esquina, com o seu jeito de andar despreocupado, essa impressão ocorria a Serioja porque o menino balançava muito os braços enquanto andava, de modo que se estivesse na fila da escola seria insuportável à criança da frente e à de trás terem de caminhar com esse garoto que não controlava os próprios braços. Mas se Serioja estivesse na mesma série do menino, torceria para cair próximo a ele na fila (embora fosse muito mais baixo do que o menino), já que ele não se importaria de que as mãos do menino o tocassem às vezes, Serioja achava muito bonito aquele jeito de andar que dava um ar despreocupado e independente ao menino, e Serioja já estava até andando de um jeito parecido mas que não era natural igual ao do menino. Serioja concluíra que era porque a estrutura óssea de seus ombros era mais estreita, e suas mãos eram muito pequenas, por isso que não dava o mesmo efeito.

O menino chegou e nem falou oi para Serioja, já foi brincar com o cachorro. Serioja sentiu que seu próprio suor estava ensopando a sua camisa, e por um instante viu-se tomado pela inquietação que atormentava o seu espírito dizendo que o menino não tinha falado oi para Serioja porque sua camisa estava num estado deplorável, suja e ensopada, enquanto a do menino estava limpinha como quem acabou de sair do banho de manhã cedo. Serioja mergulhou num arrependimento profundo por não ter tomado outro banho depois do almoço e trocado aquela camiseta imunda do uniforme. Fora que usar uniforme era outra humilhação, o menino já estava no sexto ano e não precisava mais usar uniforme.

“Por que você não veio ontem?”, Serioja quis perguntar, ao mesmo tempo se esforçando para não se lembrar de que passara a tarde com a cabeça apertada no portão olhando para a esquina e depois quando a mãe dele obrigou-o a entrar porque escurecia, Serioja sentiu uma dor insuportável no pescoço e na batata da perna. Serioja deteu o seu impulso, achando que o uniforme imundo já seria humilhação suficiente, e ele não queria ser mais rebaixado diante do menino.

– Você está usando essa roupa por que? – perguntou Serioja. – Você não foi na escola?

E Serioja se arrependeu profundamente de fazer uma pergunta tão idiota porque, antes de voltar a se concentrar no cachorro, o menino, como num espelho, olhou para a roupa de Serioja. Mas Serioja não poderia ter evitado a pergunta, aquela roupa era muito colorida e tinha gola, Serioja, se estivesse já no sexto ano, nunca usaria essa roupa para ir para a escola, só usaria quando fosse ocasião de algum passeio muito importante, quando fosse ao shopping com a sua madrinha comprar um jogo de videogame novo ou algo desse nível. Serioja tinha necessidade de ir ao shopping quase uma vez por mês porque enjoava dos jogos muito rápido, sua mãe dizia que era para jogar menos para não enjoar, mas mesmo se jogasse menos Serioja enjoaria uma hora ou outra. Sua mãe não entendia isso pois não jogava videogame, e só jogando é que compreenderia que todos os jogos eram bons no começo e depois de um tempo já não tinham a mesma graça.

Serioja se esforçava em inventar outra pergunta para puxar assunto com o menino, mas não conseguia pensar em nada. E então sem querer falou que achava engraçado o menino não ter cabelo, e o menino olhou para Serioja e ficou em silêncio. Ele insistiu, dizendo que se pudesse, pediria à mãe para cortar seu próprio cabelo daquele jeito e também o do cachorro, mas achava que a mãe não aceitaria fazer isso com o cachorro porque ele sentiria frio e ficaria muito magro sem os pelos. O menino deve ter pensado que estavam brincando com a cara dele, porque continuou em silêncio, mas voltou-se novamente ao cachorro, que desde sua vinda não parava de pular em seu colo e correr tentando abocanhar a própria cauda e trazer a bolinha para que o menino tentasse arrancar de sua boca enquanto oferecia provas constantes de sua força e de sua argúcia.

Um pensamento que assaltava a cabeça de Serioja às vezes, e que ele, com um pouco de terror e de fascínio, permitia que penetrasse e que, como um balde de água derramando-se na areia, molhasse desde sua cabeça até a região do tórax, era que o menino vinha ali todos os dias porque gostava de Serioja. Serioja desejava, por trás das grossas cortinas que escondiam seus desejos mais obscuros, que o menino viesse todos os dias e conversasse com ele sem um motivo e com um motivo.

“E por que você não veio ontem? Eu fiquei esperando você o dia inteiro, pergunta para a minha mãe.”

O menino parou de brincar com o cachorro e ficou olhando em silêncio para Serioja, com uma expressão séria. Serioja foi tomado por um acesso de raiva e uma vontade descontrolada de abraçar o menino e de sufocá-lo, então num impulso saltou em sua direção, obrigando-o a deitar-se, e, sentindo o calor do corpo do menino que tocava o seu em todas as partes, levou as mãos à sua cabeça e arranhou-o na testa, gritando bem perto de sua orelha: tomara que nunca cresça cabelo aqui! Você nunca vai ser igual ao meu cachorro!!!

O menino empurrou Serioja com força e num milésimo de segundo havia desaparecido de vista. Serioja sentiu-se bem porque agora poderia dormir sem tomar banho.

Lugares

15/04/2010

Passear tem seus acúmulos inacabados, e poças de significação (monólogos em diálogos); e ainda que seja a única coisa que eu saiba fazer com precisão, eu deveria ter atravessado, agora!, passear traz verdadeiramente ao passeante percepções inesperadas, surpresas profícuas, enervantes ou desencontradas, sabe-se que terá de se abandonar tudo em determinado momento, é claro, já sabemos, passear é um passar pelas coisas concentrando-se realmente, mas ainda assim, alô?, um passar por elas. E o fato de ser efêmero dá um tom de inconclusão às coisas do mundo, fato incontornável que nos obriga a preencher de significado as cenas mais banais, um cigarro se apagando ameaça cair da beira da calçada, e alguém se abaixa para pegar o botão que se desprendeu do casaco (o seu?), a luz sem mais nem menos está acesa sozinha de repente, ela do alto de um poste, quando um telhadinho de tijolos que parecem laranjas. As nuvens bem gordas, espessas – são muito doces – ainda que lentamente brancas.

Só para um passeante solitário – que encontra prazer em seu caminhar rapidamente – o homem falando ao telefone converte-se em algo de um sentido que ninguém poderia calcular, só a ele a música despercebida de dentro da loja insinua tristeza decrescendo…, o som dos adolescentes aos beijos são, parem com isso!, a repugnância mas a nuvem, a nuvem sim é verdadeiramente o amor configurado no mundo. Leve e macilenta como uma pele frágil que sente a menor tremulação do vento (sentir não é ver), ou cuja tonalidade, num fundo azul (em maio, talvez…) sobressai como a coisa mais realçada do mundo – que já foi embora, agora um subsolo, descendo, corremos se acotovelando, já outro, que saudades do sol, de ar limpo e árvores, escadas rolantes. E o amor vira nostalgia quase como tudo no mundo sequer encontra tempo – pensaríamos – e espaço para enraizar-se a nostalgia…

(Não passeie, apenas, não seja tão etérea:

– Mas passear é tudo o que eu sei fazer!

– Eu sei, Bruna, eu sei. Mas você passeia, passeia, e chega a um lugar.)

Claridades

13/04/2010

De um ou outro modo eu poderia, afinal, começar descrevendo este belo jardim, que em sua plenitude não é só belo, basta deter-se em alguns detalhes da velhice que se apresenta por aquela folha escurecida ou por aqueles pequenos animais mortos ao chão; ou eu poderia escrever sobre todas aquelas pessoas sentadas esperando não se sabe direito o quê, mas nada nos seus rostos apaziguados, tristes ou envelhecidos, desperta curiosidade em quem olha para eles, pois afinal poder-se-ia perguntar: o que estão esperando? Por que não há lugar para sentar? Esperas não dão nenhum sossego, porque eles fingem estar sossegados? O QUE HÁ DE ERRADO COM VOCÊS?! Que coisa absurda esta fila longa e enfadonha, imagine só, ficar aí durante horas! Mas nada na sua expressão desindividualizada (é por isso que não gastaria meu tempo descrevendo rosto por rosto) desperta sequer um muxoxo de curiosidade, e eu nunca escreveria nada sobre esta cena infame e vulgar.
Outra coisa sobre a qual eu certamente poderia escrever um conto prolongado ou até um poema é a voz daquela mulher alta: quando a escuto falar sou surpreendida por nuances inesperadas na voz que a preenchem com mais doçura… De repente, sobressai uma espécie de rudeza original da tessitura que no entanto a torna mais encantadora, esta voz que tanto aprecio escutar e compreender as nuances expressivas, e unindo-a com seu olhar nascem espontaneamente deliciosas ambiguidades (deliciosas e insolúveis) – e é por certo um assunto que interessa infinitamente a todas as pessoas do mundo, seria do proveito de todos que se exprimissem mais ambiguidades, matizes de cor ou tonalidades musicais (como a voz desta mulher alta).
Porém nada me interessa mais do que eu mesma, então seria do interesse de todos que eu explicasse, utilizando meu método de abstrair conceitos em imagens, minha enriquecida experiência desta tarde, em que pude ouvir um concerto de Egberto – sua loucura desautomatizada cujo lençol subterrâneo de racionalidade arraiga seu solo de criação, deixando crescer imensas árvores inesperadas e com galhos absurdos, errados e no entanto coesos; ouvi durante a tarde uma mesma música pois ela, de modo muito pouco racional, se esgueira para determinados cantos minúsculos ainda não atingidos de meu espírito – e por isso sinto cócegas da primeira vez. E então quero ouvir de novo porque logo já estou criando uma narrativa imaginária (ainda que apenas na segunda vez) insinuada pela música (fico satisfeita em poder fazer como o cinema que submete a música à sua ditadura de distração) – imagino minhas pessoas queridas andando e agindo no mundo criando suas próprias ambiguidades (para um atento observador de fora) em conjunto com a música, que preenche os recantos da cena com essas minhas pessoas queridas caminhando e conversando, abaixando-se ou sorrindo, assim como a música uniu-se numa dupla com vãos de minhas sensações, casal de que derivam ambiguidades e bonitas incertezas. Sim, incertezas, porque não nos esqueçamos de que estamos tateando música com palavras, e falar sobre música é incerto, além de, é claro, absolutamente sem sentido uma vez que os conceitos no mundo já estão bem firmes, e só podemos falar com a nossa boca, então, do que já existe no mundo e nada do que é novo ou transformado em nosso interior, porque ainda não se inventaram as palavras necessárias (mas esperemos, esperemos enquanto prestamos atenção à música). Contudo quem é que precisa de palavras quando no mundo já existe tudo de que precisamos? Não se precisa de nada! Desligue este som!
A música dá a ver o que transborda de meu espírito e nada deve sobrar a ponto de não caber em si.
Ou quando alguém sabe o que é um hipopótamo pelo documentário de terça-feira e por isso nunca leva seu filho ao zoológico.
B.

“gira agora que a minha consciência, volante,
é apenas um nevoento círculo assobiando no ar”

B., onde eu estava? Onde é que parei…?

Você pegando na minha mão. Mas isto é já passado.

Você se lembra?, nós ficamos naquela posição sem nos importar com o tempo que passava, com as pessoas que passavam, ou se já estávamos de mãos dadas por tempo demais… Você se lembra?

Você se lembra?

Algo em mim recaiu, se está assentando – como a areia, depois do mar bravo, recai, acumula-se. Não estou conseguindo falar muito. Antes era como se tudo pudesse continuar, para a frente, para todas as direções – e havia também as profundidades – ou eu mesma me interrompia como se fosse outra pessoa mas isso por si consistia já num prolongamento; e agora não é mais assim, agora tornaram-se outra coisa, os acontecimentos:

(“Se eu agora chegasse às mesmas janelas não chegava às mesmas janelas“)

Ir à praia com você, B., te ver todos os dias num cotidiano através da sua experiência, ou seja, com tranquilidade e sem minhas pressas, e depois voltar às minhas pressas, ou ver você dando importância à geladeira que parou de funcionar, ao jardim cujas plantas cresceram demais, ao furinho na sua blusa de tricô laranja, vê-la bonita sem roupa, de biquíni, vê-la mergulhando na piscina, conversar sobre coisas de nossas vidas, você me ensinar a prender meu cabelo naquele coque diferente que fica muito bonito, e depois rir e mencionar tudo, conhecer quem convive com você todos os dias e me dar muito bem com essas pessoas, ficar à vontade pois tudo, percebo, é natural, e você é uma pessoa como meus amigos, como quem amei e entrevi os emaranhados e embates interiores, os quais se revelaram para mim em nossa proximidade, como minha mãe. Depois disso tudo, sinto-me diferente, talvez mergulhada num encanto novo. Ou num encanto envelhecido ao qual em verdade eu nunca soube me acostumar, e então é ele quem se acostumou a mim.

Você, imersa em sua vida…

Eu tenho apenas a mim. E tenho demasiado com o que lidar.

Sim, viver uma experiência não significa exatamente um papelzinho que se desdobra e então se lê o que nele está escrito claramente – não haverá dúvidas do que está escrito e antes apenas não se tinha conhecimento do que estava escrito pelo fato de o papelzinho estar dobrado – desdobra-se, e aí está. A experiência?

Misturada, acúmulos outros, – e cores e flores – escurecidas, embaçando-se e brincando numa descontinuidade para todos os lados.

Tentativas estreitas… Tentar, tentar aproximar-se.

Uma superfície de papel lisa e branca, tintas em mãos, sabe-se o que se vai pintar, a tonalidade que se quer, precisamente. Sabe-se de tudo e está tudo planejado, as pinceladas, o efeito do todo, o amor-próprio. Primeiras tentativas, e então o amarelo precisa de um pouco de verde para esmaecer, mas se havia esquecido – a memória não envelhece todas as experiências, afinal – de que essa mistura converte-se num marrom esquisito, e logo tem-se por impulso pincelar a mancha com branco (vai clarear!) mas o branco não faz nada senão tornar o marrom mais ininteligível – só se consegue compreender, já que as cores não são compreensíveis, os movimentos marcados no papel pelas próprias pinceladas (óbvias, frustrantes, está ali toda a nossa figura, todos os defeitos e vícios, caminhos repetidos e despercebidos) – e dois segundos depois resultará do todo uma cor feia e estranhíssima (contrastando com as pinceladas óbvias, mas também informes e implícitas de sentido), irremediável, misturada, nada do que se imaginou.

(E então é claro que viver é muito perigoso.)

Aonde se pontua o fim dos acontecimentos? Você se lembra, B.? E, se você se lembrar… Se você se lembrar, B.? Estará pontuado, precipitaremos um mesmo momento despido de fases, de estados, um momento limpo, novo e sem passado, nossas afluências terão desaguado, encontradas, no mar (na “voz inédita e implícita de todas as coisas do mar”)?

Se eu puxo sempre o mundo para mim mesma, e tudo vira eu mesma?

(“Ficou só um eco dentro de mim.
Decresce sensivelmente a velocidade do volante”
)

Quando as coisas são o passado.

Eu sinto somente como que um volante dentro de mim girando; como se logo estivesse vivendo outra coisa – inédita e que no entanto esteve sempre em mim – e eu só perceberia um pouco, porque não se considera, na vivência colada ao presente, todo o peso presente e futuro, todas as coisas inéditas e trabalhosas que mudar-se arrasta consigo.

Só percebi um pouco, B. (como quando se vê, na água, o reflexo das árvores delicadamente sugeridas pelas rugas e tremulações da superfície, seu atrito de ventos, desencontros).

E vivi muito.
(Vivi muito,
ou vivi pouco e senti muito?

São coisas diversas?)

Viver é como passear, e seus riscos implícitos, porque há inúmeros degraus e faltas dos quais ninguém fala, e desigualdades, nas pessoas, que não se expressam imediatamente pelo mero uso de nossa língua, finos caminhos afluentes os quais somente quem os vive é quem os pode, sem segurança, tracejar, e assumir o volante – senti-lo mover-se – de uma experiência, em seu intenso e invisível percorrer, é como tentar tracejar um único caminho afluente, específico, mas pensando na mesma língua que todos, ou seja, utilizando o mesmo lápis preto que todos certamente irão utilizar ou já, muito tempo atrás, utilizaram.

B.

Ansiedade

24/03/2010

Porque quando se responde à determinada questão simplesmente lançada sem mais nem menos tem-se em mente que é uma pergunta sem cabimento e que não é de modo algum necessário que se responda a ela com precisão. Além do mais já está dando a hora, logo tudo ficará muito cheio e não se poderá respirar em qualquer lugar que se esteja, sabe-se que logo haverá a indeterminada necessidade de ir embora e não temos tempo para responder à questão respeitando todo o cuidado e empenho os quais ela com certeza demanda. “Tal questão é muito emaranhada”, é a frase que percorre rápido a cabeça, mas não é preciso que se passe nem um segundo para que, atropelando a flecha que foi o pensamentozinho, já estejamos bolando um modo exemplar de respondê-la, e já não se está mais preocupado com as enormes filas que se terá de enfrentar por termos irremediavelmente nos atrasado participando de algo tão inútil quanto uma conversa, e, pior, ter cedido atenção, animado-se com assuntos de mínima importância, sequer constituem assuntos sobre os quais realmente se fale por aí. A pergunta, por outro lado, pode tocar em muitas camadas do tema ao qual alude (alude, somente, porque afinal integra uma referência comum e óbvia do passado – e quem é que não teve passado? Por favor, me poupe dessas suas incertezas.), pode dizer respeito a qualquer experiência, possibilitando, portanto, que se refira a muitas coisas em todos os níveis nos quais as coisas podem se encostar, em seus possíveis e arredondados lados. E por ser uma pergunta tão densa e pouco explícita sobre sua própria complexidade (todos a tratariam com desprezo, não há nada aí!, diriam, venha logo!), pouco precisa sobre o ponto no qual a resposta deve se deter, afinal, as perguntas são flores ainda fechadas, por ser isso e também algumas outras coisas que só caberiam a um outro conto que não este, a pergunta nos deixa realmente confusos e sem rumo. A resposta colocar-se-á tal como um mar sendo puxado por um canudinho; ou seja, na própria resposta ajeitada apressadamente transparecerá o emaranhado da reflexão – suas nuances e desenvolvimentos – ao lugar-comum (também um pensamento que não se desdobrou) e o interlocutor não compreenderá muito do que lhe está sendo comunicado (está tudo bem, está tudo bem (ainda) – a pergunta, afinal de contas, não merecia muito de meu empenho e na aparência – não há dúvidas! – será apenas este o motivo de a resposta apresentar-se emaranhada, aos olhos de meu interlocutor) ainda que se responda com muitos gestos e modulações da voz.

B.

“Mas mesmo o diálogo não tem peso algum; é, por assim dizer, a cor pálida de fundo do qual se destacam os monólogos debruados de réplicas, como manchas coloridas em que se condensa o sentido do todo.”

e você viria rápido e me abraçaria, B., encostando sem pudor todo o seu corpo em mim, e mantendo seus braços, contornados em meus ombros, agarrados com força. Este abraço diria:

– Me desculpe por demorar tanto para dizer tudo isto (ainda que agora eu o esteja dizendo sem usar palavras, mas é só assim que isto poder-se-ia expressar, B. As palavras deixariam todo o importante escorregar, esvaziar-se, esvaziar-nos e não restaria nada de desesperadamente significativo – como se belos olhos azuis estivessem, em sua resignação, fechados, quietos – quando em verdade desejariam abrir-se, mostrar-se pela imensidão clara e transparente de que são donos, os lindos olhos claros os quais significam tanto, e que retêm um interesse contido, que no entanto transborda. E não tarda que os próprios olhos em sua imensidão azul também passem a transbordar, vertendo sua presença ou sua felicidade.), me desculpe, minha querida, estive tão distante todo este tempo e nem eu sei mais por quê, não me lembro absolutamente porque estive tão distante, porque deixei o tempo desabitado empoeirando, esbranquiçado, como um intervalo em nossas vidas. E então de todos os instantes despercebidos, inexplorados, o que eu mais gostaria de experienciar é enfim este abraço. Sim, é verdade, você me olha surpresa – embora também me abrace – me olha com surpresa mas o que eu mais desejaria experimentar, agora, condensa-se naturalmente neste abraço, como as incontáveis pequenas gotas de chuva que, abrigando-se uma na outra (em toques, sobreposições, misturas), se apertam de modo que caibam nas nuvens, um presente margeado de tensão, todas abraçadas, acinzentadas, porém – e aqui me refiro às nuvens – preenchidas. Pois se há um consolo de que precisamos (eu estive com saudades, estive te esperando), este consolo no vazio precisa precipitar num abraço; este abraço então aclara (caso se tratasse de cores) ou colore as pálidas tonalidades de azul que impregnam os momentos de indiferença, tonalidades que um dia, sucedendo em matizes, afrouxarão ao cinza, ou, ainda, as cores estarão de todo ausentes (não se percebeu que elas lentamente se distanciavam e iam embora, como nuvens que se distanciam e vão embora, e nós não as percebemos), como um céu destituído de azul. O que consola tem de surgir a partir, somente, deste abraço inteiro, o qual abrange não só meus braços contornando seus ombros, seus braços em volta de minha cintura, mas também nossos espíritos se tocando, dialogando como num diálogo possível, preenchendo-se reciprocamente – pois é assim que tem sido, B.: animamos nossos encantamentos. E é assim que deve continuar sendo em todos os momentos vazios e esquecidos pela vida (eu estive com saudades, estava te esperando), deve ser assim enquanto precisarmos da vida: habitaremos o tempo povoando-o em nossas nuances expressivas, pelas nossas presenças, uma da outra, B.; habitaremos o tempo de nossa presença ou de nossa felicidade.

B.

“Ela por vezes sorria, pousando os olhos em Frédéric, por um instante. Então, ele sentia aquele olhar penetrar-lhe na alma, como esses grandes raios de sol que descem até o fundo da água.”

– É um alumbramento.

– Pode ser… Não sei bem se é ou não é. Não sei se estou no mesmo estado de espírito que você. Pode ser que para você seja, enquanto para mim não é (embora eu não tenha certeza; não posso concluir).

– Sim, mas você concorda que alumbramentos são bons?

– O significado deles é muito bonito, e em cada contexto que favorece sua aparição encontramos milhares de razões e incentivos os quais, mesmo que sem lógica, em seu acúmulo desordenado (pois nosso espírito aceita tais conjunções), impelem às pequenas epifanias que descem para dentro de nós em linhas verticais e douradas, muito profundamente e com delicadeza e compreendem todo o instante numa alegria inesperada e nova.

– São bons, você está dizendo…

– Talvez sejam mesmo. Mas há um pequeno muro erguido diante desse alumbramento, que me impede de contemplá-lo em sua inteireza brilhante. Não gosto da palavra alumbramento, e ela diz muito pouco – além de não ser bonita – diz muito pouco para tudo o que pode significar, e então nunca se pode dizer “é um alumbramento”, deve-se sempre criar uma metáfora que espelhe toda a significação do que é bonito para você, B., ou ao menos descrever com muitos e importantes detalhes tudo o que é bonito para você.

B.

B., hoje eu comecei a me lembrar de muitas coisas, mas não de todas elas de uma só vez, é claro, pois a lembrança sempre parte de um pontinho e se encaminha por progressões, numa fila indiana, então eu comecei a lembrar a partir deste pontinho de muitas coisas, uma depois da outra (e algumas ao mesmo tempo – mas isso não interfere no pensamento, pois a cabeça funciona diferente, não é em verdade uma fila indiana – funciona como um quadro ou como um livro -, cada uma funciona de seu próprio jeito). Eu me lembrei : dos seus olhos e da sua pele, do seu cabelo preso em um coque, com a nuca aparecendo (eu poderia olhar para ela durante muito tempo, pois são muito atraentes os fiozinhos que caem em desordem, sobre a pele branquinha), dos seus sorrisos carinhosos para mim, de quando você fica em silêncio, ou da sua casa, de acontecimentos que nem foram verdade, de você pegando na minha mão. Não foi só disso que eu me lembrei, e, embora eu não conte com grandes reviravoltas, tenho muito a pensar.

Lembrei-me de um sonho desta noite, acho que foi um sonho mas pareceu real e quando me lembro dele não é como se estivesse meramente recordando um sonho. No sonho, eu estava sentada numa cadeirinha de palha almofadada (contudo aqui em casa não há nenhuma cadeirinha de palha), e esta cadeirinha de palha só existiria num lugar muito especial, exige, embora tão trivial a todos, exige um ambiente que harmonizasse com sua presença – com a cadeirinha de palha. E então, B., o ambiente condizia perfeitamente, era uma inteireza: uma casa não muito grande, toda de madeira, as paredes e o teto de madeira escura; a casa era cheia de janelas enormes, e fora das janelas estava um dia ensolarado (embora não muito claro, as cores eram diferentes de quando olho agora pela minha pequena janela e vejo lá fora um dia obviamente ensolarado. Aquele claro/escuro não tinha nada de óbvio, pois se exibia como se as cores estivessem envelhecidas, como se tivessem percorrido um longo caminho, obedecendo ao tempo, pacientes, até atingirem aquela tonalidade meio escura, de coisas usadas, embora nada da paisagem fosse para se usar mas apenas para se ver. Então, como se as cores tivessem esperado todo aquele tempo, havia um céu particular, de cores envelhecidas, como se dissessem, chegado o momento: nós estávamos te esperando, B., para que você enfim nos pudesse perceber. Você compreende como as cores eram diferentes e inexplicáveis, B.?), pois num sonho nada se explica, e eu olhava para fora da grande janela à minha frente e via tudo um pouco escurecido, como se a todas as tintas (caso se tratasse de um quadro) tivessem sido adicionadas pequenas gotas de preto. Havia, B., muitas flores contornando as janelas, e essas flores, não pense que elas eram pequenas e óbvias, essas flores eram enormes (lírios e crisântemos enormes), e de seus caules saíam imprevisivelmente folhas também enormes, e essas folhas e flores entravam um pouco pela janela, invadindo a parte de dentro de minha casa, mas eu não me preocupava com isso. Tudo era normal, afinal, e porque eu iria me preocupar se as flores eram grandes demais e entravam pela janela, ou expressar perplexidade mediante aquelas cores estranhas? Nada disso era para se pensar, e no entanto eu sabia que em algum outro lugar, fosse outra a ocasião, eu estranharia essas singularidades.

Eu estava sentada na cadeirinha de palha com um pé para cima, enquanto pensava, mas não sei ao certo qual era o teor de meu pensamento. Lembro-me de imagens, imagens sem conceitos.

Você me escrevia, no pensamento, de forma gentil e atenciosa; eu ficava alegre, mas não me seria possível reconstituir suas palavras, o modo pelo qual você as concatenava, como se, dentro de você (dentro de meu pensamento, dentro do meu sonho) elas tivessem esperado durante muito tempo, pacientes, porém vivas, e quando você as expressa, sem precisar refletir antes de dizer (pois já se refletiu muito sobre as palavras), elas simplesmente saem com uma fluidez e naturalidade que te são próprias, B., e naquele momento da leitura eu ficaria imaginando, muito curiosa, como é que você consegue dar tantas voltas com os pensamentos – levá-los por todos os desvãos – sem os articular, apenas dentro de sua cabeça – como se fossem imagens, mas bem fundamentadas conceitualmente, e ainda assim de todo livres (soltas de amarras ou raízes). As palavras assim, fluídas, naturais, bem pensadas, com tantos significados condensados em sua objetividade concisa, me trariam uma grande sensação de felicidade. E então, em pensamento, já preenchida pelo simples decorrer da leitura, me acometeria uma alegria inesperada: você, ao final da carta, me deixaria uma continuação (como se a mensagem terminasse em reticências, mas essas reticências consistiam nas próprias palavras). Você dizia que as palavras, por vezes, deveriam manter-se sob abrigos, e alguns abrigos protegiam-nas de modo tão estreito quanto um não falar. E você acrescentaria, entre aspas: “conhecia a própria alma, era preciosa para ele, e a protegia como a pálpebra protege o olho e, sem a chave do amor, não deixava ninguém entrar em sua alma“. Eu compreendi na hora do que se tratava, de onde viera aquilo, e meu coração, num sobressalto, passaria a bater rapidamente, como que ansioso para a continuação, desejoso de que aquelas palavras não fossem em verdade reticências.

B., neste momento, eu percebi, no pensamento (pois o nosso próprio pensamento nos esconde coisas), que dentro do envelope ainda havia conteúdo intocado (só remexido antes por você, mas para mim aquilo era desconhecido e novo). “O que mais seria, se esta carta já acabou? (ainda que em reticências)”, pensei. Eu virei o envelope com a abertura para baixo e comecei a sacudi-lo, e de dentro dele caíram fotos. Juntei todas em minhas mãos, e comecei a passar, com cuidado, uma por uma. Eram todas imagens de mulheres. Mulheres muito belas, posando em ambientes que condiziam com sua presença, junto de flores ou de cores, ou simplesmente do céu numa tonalidade inesperada, aquele avermelhado inexplicável, repentino, como num quadro. B., você percebe que na vida real, trazer à tona fotos, ou mesmo a simples ideia de outras mulheres num contexto seu, seria, para mim, uma ofensa. No entanto no sonho aquilo era bonito, quase esperado, e aumentava minha felicidade só de olhar para as imagens (algumas mulheres estavam com as mãos cruzadas sobre as pernas e sorriam de lábios fechados, outras dançavam em meio a um amplo gramado verde-escuro, algumas olhavam para cima, e outras mantinham-se de olhos fechados, como que resguardando sua luz, que mesmo assim conseguia escapar, irradiando-se por toda a imagem). E, dentro do meu pensamento, dentro do sonho, todas aquelas mulheres me lembravam de você, todas, e no momento em que eu centrava meus olhos nelas, como que me diziam, uma por uma, que você estava ali, entre todas elas, nelas, em mim. E então eu percebi, ainda que de modo hesitante, aos poucos, que as fotos eram reticências em imagens, eram como suas palavras que não desvelam o todo, só insinuam, e eu sei que você está por trás delas, eu sempre soube. Como não adivinhar?, através de suas leves pinceladas em cores tão bonitas, pinceladas que cobrem o que está embaixo mas que, por serem aquarela, ainda dependem enormemente da tonalidade do que está embaixo. E todo este acontecimento seria como você me entregando, com um sorriso dos olhos, a sua chave.

B.

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Simetria

16/01/2010

está chovendo?
(melodias ininterruptas aguinha de folhas e asas
procuro; uns sons. que os saiba; são aos versos)

tão escuros. e não prevejo borboletas; as procuro; todas escondidas
(respingando a chuva?)
pois chove… mas, não!
espere,
esperem, borboletas!
vocês esvoaçam
(eu sabia!)
bagunçando o meu estômago, estão em harmonia, essa bagunça,

tudo porque espero

(quando, tenho pressa!, procuro alguém
– rimas brancas, esvoaçantes, preveem alguém -)
a quem eu quero
(mas a rima, se procura – degraus –
alteia, escura e se desvia – a melodia –
dizverseia; já outra – se a altero

minhas asas)

B.

“e ainda assim, eu sabia, não captara Lavínia por inteiro.”

e a casa estava exatamente como da primeira vez em que eu havia te visitado, limpa, pequena, um tanto desorganizada pelo exagero de coisas na estreiteza do espaço. Olhei para B. sem saber o que fazer, nem o que falar, naquele momento só antecipava o motivo pelo qual ela me havia telefonado pedindo, num tom incompreensível, para que eu fosse até sua casa. É claro que logo me envenenei de muitas esperanças, uma evasão de preencher o futuro com todos os desejos que coubessem na estreiteza que o tempo me cedia. B. me olhava de um jeito curioso, como se estivesse procurando, como se me estivesse procurando. E é evidente que logo me encontrou, eu estava ali tão em evidência, e foi neste exato instante em que disse, como se se arriscasse, no mesmo tom sério e incompreensível do telefone:

– Pode sentar…

Sentei logo, no mesmo lugar da primeira vez. Por ter sentado tão rápido, desarrumei com o pé o tapete, e enquanto mascarava o fato de evitar encontrar aquele olhar incisivo, enquanto evitava-o alinhando o tapete aos tacos, B. iniciou seu falatório e no começo, eu não compreendi e sequer posso reproduzir o que ouvi, não ouvia, apenas tentava compreender o que se estava passando comigo e com ela, eu queria entender a atmosfera. Quando finalmente pude me sentar corretamente e me concentrar no que B. dizia – sem a olhar – eis o que ouvi:

– B., com todo o cuidado que me é possível dizer isso que seja talvez tão doloroso… Não sei ao certo como dizer, você de fato é uma menina (e ao entender estas palavras, adivinhar sua continuidade, senti como se apertassem meu estômago) tão intrigante, inspiradora… Encontro em você qualidades raras, tais quais a espontaneidade junto com a inteligência, e o inegável interesse. É por isso que não hesitei em me aproximar de você, sinto também uma identificação grande, mas, bom, é preciso dizer uma hora ou outra, talvez não seja do mesmo modo que você imagina as coisas… Você imagina muito. Veja, você já reconhece a maneira pela qual se estrutura a minha vida – ela já está estruturada, e não há mais espaço para se abrir, não para o que você parece desejar… Sinto tanto em lhe dizer isso, em lhe negar, não…

Levantei-me num movimento brusco, repentino, impedindo que ela continuasse, sem contudo me dar muita conta do que impedia. Eu a olhei bem nos olhos, e o olhar invasivo desta vez foi o meu. B. desviou-se, como que envergonhada. Mas era eu que estava profundamente envergonhada, era eu que sentia um ridículo me expondo e desejava ir embora sem saber para onde, eu desejava gritar, sacudi-la, desejava ir para muito longe… E a sensação piorava à medida em que me impregnava a consciência de que nada adiantaria mais do que permanecer ali parada, me esforçando em encontrar os olhos de B. – eu ansiava por ela, por sua cumplicidade – os fundos olhos que eu tanto procurava naquela visão encoberta e sufocada. Olhos que pela primeira vez me apartavam; estão me negando.

Friamente, eu pude firmar essas palavras:

– B., por favor, abra a porta que agora quero ir embora.

Nada mais óbvio eu poderia ter dito – mas por que sempre me enganei em imaginar que dizer coisas de um modo diferente mudaria a realidade?

Sem dizer nada, como um grande gesto de respeito (e só agora pude compreendê-lo), B. abriu-me a porta, ainda tímida, e antes de eu sair, apenas me olhou, desta vez firme e estranha. Eu continuava não a compreendendo, como desde o primeiro dia ela me impunha, tão naturalmente, seus enigmas. E eu submergindo, num impulso, apenas um segundo nas profundidades daquele olhar, me afastei rapidamente, abri eu mesma o portãozinho da frente e saí, de todo desnorteada, ecoando o ranger sôfrego do portãozinho.

B. parou alguns instantes no meio da rua estreita, e decidiu-se, em aparência, por virar à direita. Andava rápido, com a cabeça abaixada, gotejava-lhe o rosto mas seria impossível dizer se de suor ou de lágrimas, poder-se-iam até unir-se ambos, aquela junção incompreensível para um observador de fora, tal como uma senhora que lhe observava de uma janela. B. não lhe deu atenção, caminhava resoluta (no entanto, se alguém pudesse ler os pensamentos de B., notaria sem demora que ela estava muito insegura) e entrou num bar, sentou-se e falou alguma coisa. Logo lhe empurarram um copinho pequeno; B. bebeu, franziu o rosto, fez menção de cuspir, mas – não sem alguma coragem – engoliu. Assim repetiu-se o gesto, e durante muito tempo B. ficou sentada no bar, pois era um lugar limpo, bem iluminado. E havia silêncio.

O dia se foi tornando mais estranho e incompreensível. Como se se aproximasse, lentamente, do limite de um abismo, e ela também se estava aproximando dos seus abismos – apenas como quem se aproxima lentamente até a beirada, e lança o olhar para baixo. (Apenas até as beiradas, apenas um olhar para baixo.)

Então levantou-se, fraca e instável, tentou pagar, mas o dono do lugar limpo e bem iluminado pareceu recusar o pagamento, e isto B. não entendeu. Mas, talvez porque sentisse o desprendimento de todas as coisas, saiu sem dizer, sem agradecer. Foi o desprendimento amargo – um desprendimento de si mesma, acima de tudo – que a guiou, num impulso sem sentido de novo para a rua estreita, e agora chovia, de repente, e B. encharcada e sôfrega, estacou na frente do portãozinho, somente parou, e assim ficou, parada, estranha, amedrontada. Os desamparos.

B., sozinha e pensativa, ainda sentada no sofá, percebeu a chuva e se lembrou da janela de cima aberta. Ao subir correndo e fechá-la, assustou-se com a presença da outra, parada na frente da casa, e nesse momento sentiu que apertavam o seu estômago com muita força. B. não poderia permitir a outra ali, sofrendo, resfriando-se, a outra poderia pegar um resfriado se continuasse ali tomando chuva e friagem… Um exagero tão sincero. B. sem demora desceu as escadas e abriu a porta chamando como se obriga – o conhecido mando que é, em verdade, esconderijo do cuidado – um filho a imediatamente sair da chuva. Entrou, toda encharcada, em soluços. Mas logo os soluços cessaram.

Eu vejo apenas como o seu olhar transmutou-se desde quando saí, B., e se agora lhe pudesse relatar o que penso, você ouviria com atenção apenas palavras sobre meu novo estranhamento do seu olhar, tão inteiro e contínuo. Você me olha como se finalmente encontrasse a B. que procura, mas, B., eu me pergunto se isto não seria por que você nunca me viu deste modo, assim despida, obscena. O que é que há para se gostar em algo tão sórdido? Você me olha muito profundamente e com insistência. A vantagem que sobra é que eu igualmente lhe posso penetrar – em fragmentos – o espírito que se havia tristemente apartado de mim, e que me havia abandonado desamparada. O curioso, que se desdobra naturalmente da minha fala, é que continuo não conseguindo te entender, não tenho a mínima capacidade, em aparência, de desvelar o significado de você me tratar com tanto cuidado, de pedir que eu suba as escadas, como é que se vai enredar uma coisa dessas?, tento mas é impossível condensar o não compreender as coisas, não há modo possível de corporificá-lo. Eu apenas sei gostar da sua presença; a isso se dá nome? Você me estende de antemão uma toalha, deixando a porta entreaberta, gesto muito provocante para um observador de fora, e eu sinto a ducha quente que me alivia e alivia o meu espírito (embora ele já estivesse muito aliviado desde quando você me reabriu suas portas). As janelas, B., permanecem fechadas, e eu apenas sinto o calor, sinto porque você me deixou entrar, mas não consigo enxergar direito sem a passagem de ar das janelas, essencial para diluir o vapor e o turvamento que não me deixam ver nada direito, não posso enxergar coisa alguma, apenas senti-las. E talvez por isto, ou talvez por ser já desajeitada, e ainda mais desajeitada depois de beber, tenho grande dificuldade em me enxugar, cada movimento ameaça uma queda. Você, tão logo me nota neste estado, você no seu cuidado inteiro, entra devagar e com delicadeza retira a toalha das minhas mãos, me enxuga, e eu sinto – e por isto ruborizo um pouco, como ruborizam os adultos – a sua respiração muito próxima, ao mesmo tempo em que sinto, sem olhar, as suas mãos me enxugando com muita naturalidade e eu me pergunto como é que você pode ser assim despudorada. Agora eu vejo seus olhos rasos e transparentes, brilham feito uma aguinha rasa num dia ensolarado, e você me sorri com os lábios fechados – você sabe que eu estou olhando através de janelinhas claras – formam-se as minhas queridas curvinhas em volta dos seus lábios fechados. Você me pega pela mão e me conduz com uma espécie de leveza até seu quarto, os lençóis meio bagunçados, e sobre eles você me permite deitar. E então, eu espero que você saia e apague as luzes, como fazem as mães com os filhos. No entanto – pois em momento algum você acaba, você jamais deixou de transmitir a densidade, as profundidades dos seus lindos olhos tão azuis – você se senta e ajeita as pernas para cima da cama – como quem pretende se demorar na posição escolhida – e firma seus grandes olhos em mim, seu olhar por demais escuro e ao mesmo tempo naturalmente radiante, firma seu olhar em mim e passa a acariciar meus cabelos molhados – vejo que você até se curva um pouquinho para sentir neles o cheiro do seu xampu -, você fica assim, acariciando meus cabelos, brinca uma vez com o polegar roçando meus lábios, tão provocantes os seus enigmas, não diz nada – apenas me olha – Por que você me olha assim, B.?, e os seus olhos me exibem um sorriso, vejo que você está sorrindo. O seu sorriso me conduz a lugares estranhos, eu estranho tantas coisas!, leva-me a lugares meus, depois que já foram seus… Tais lugares novos, eu os posso sentir e os estranho muito enquanto você, distraída, desembaraça meus cabelos entrelaçando neles os seus dedos branquinhos.

B.

“E eu tinha de gostar tramadamente assim, de Diadorim, e calar qualquer palavra.”

O seu carro ainda lá e, por eu estar esperando tanto – por que é que esperar tem de ser assim lento, a ansiedade tão descompassada com o tempo que se deve esperar? Esperas não dão nenhum sossego – já havia me cansado, portanto me levantei e fui andar, meio sem tino, e foi aí quando encontrei o seu carro ainda estacionado, preencheu-me. Muita coisa me passou na cabeça, mas logo todas deram lugar ao acontecimento presente, porque a realidade tem mais força de afastar a imaginação. Eu passei, olhei com calma… Estava todo bagunçado a parte de trás cheia de papel, blusa. Feito você é desordenada e sem preocupação, provisória e ao mesmo tempo tantas responsabilidades. E o que é que eu estava fazendo, hein, B.? Mas não adianta nada eu falar “B.”, pois isso eu pergunto é para eu mesma responder. 

Já anoitecia no jardinzinho da casa de verão, era ali no jardinzinho onde eu estava rodeando devagar. Eu sentia tudo tão iluminado por causa do céu, que aproximava uma escuridão bem funda, mas azul, tão azul, por isso dava pra ver até a bagunça de dentro do seu carro, sem nem precisar fazer conchinhas com as mãos coladas nos vidros (ainda bem, porque, caso eu fosse obrigada a fazê-las – fosse outra a escuridão – se alguém visse estranharia muito e eu me constrangeria por ter sido pega numa situação dessas). Muitas estrelas, muitas, quando se olhava para cima, coisa que fiz bastante, e andar devagarzinho tomando cuidado para não tropeçar nas pedronas em desconjunto, colocadas, pareciam bem erradas, e no entanto haviam sido recortadas assim – umas partes mais altas do que as outras -, algo muito natural. E devagarzinho eu as sentia sob os pés, meu apoio.

A sua ausência era quase tão estranha quanto a sua presença, B. Eu não sabia qual me atormentava mais a cabeça. Veja só, pois a sua presença era tão ambígua. Eu sentia um preenchimento bom e calmo, como um universo muito cheio de sua própria densidade – como se o ar estivesse sendo para se nadar. Havia tudo isso em minha volta, tudo isso que eu não compreendia, mas justamente pelo mistério era que eu me encantava. Isso quando você estava conversando perto de mim. E quando você não estava, a B. irreal era tão parecida e densa! Você me sorria, em relances da minha lembrança, com muito mistério, e seus olhos sorriam com muito mistério.

B., a minha questão principal vagava para lá e para cá pelas beiradas do fato acontecido antes. Você com certeza se lembra – ou talvez não se lembre – de quando estávamos aguardando as outras pessoas ficarem prontas, naquele breve momentozinho no qual esperávamos porque sairíamos e iríamos à praia – acho que aqui seria melhor eu começar a contar como se fosse para outra pessoa que não você – foi quando eu olhei para B., buscando uma nova resposta a todas as minhas questões jamais respondidas, a tudo o que eu digeria sem uma vez sequer abarcar uma conclusão, eu procurava assim nos olhos azuis escuros de B. uma resposta. Porém só podia era conceber sua presença vertendo; eu parada nadando na densidade que me preenchia e que me transbordava, derramava muitas águas para fora, as sobras de muita água. Sem dizer nada, os silêncios. Éramos tão à vontade nessas singularidades, e B. respeitava tudo isso, isso que era intenso e delicado, raro, sem no entanto explicitar o respeito, tão mais bonito ele ficava, todo elevado. E eu, repentinamente resoluta naquele absurdo (como é que pensei em começar a dizer uma coisa dessas?!), pontilhei, como quem não quer nada e só está pontilhando, toda reticente de cabeça baixa e a voz baixa: “B. …”. E então – aqui prefiro voltar a contar para você – você, como que pega de surpresa, ergueu a cabeça rapidamente e num sobressalto me lançou aquele olhar severo, e a sua testa toda branquinha se fechou em uma ruga bem no centro.

Que raios eu havia dito num espaço de repente em branco na minha memória? Pois não sabia mais se havia terminado a frase naquele tom de voz baixinho – e caso tenha de fato ido até o fim, se você me havia escutado – ou se só pensei. Torna-se muito difícil para mim, B., em determinadas vezes separar o que eu penso do que eu falo. Essas separações, eu me esqueço delas. Foi por isso, por não saber em absoluto nada que transcorresse para além da sua expressão firme e insondável, que meus pensamentos começaram a se ramificar desesperadamente para todos os lados – como se antes se limitassem apenas a um tracejado incompleto, irresoluto, e de repente explodissem numa árvore absurda de traços verticais e horizontais – e eu circulava. Toda receosa eu fiquei naquele desespero de saber se havia dito algo importantíssimo, aquelas palavras mais importantes do mundo para você, num momento tão inesperado e sem contexto – pareceria gratuito! – precisamos nos esforçar para as coisas não tomarem essa aparência de gratuidade – e você não compreenderia, pois, para que você entenda e saiba de tudo, é preciso tempo, espaço, precisaríamos de uma longa dedicação e paciência para que eu lhe incutisse no espírito toda minha travessia, não é assim, conciso, que se expressam essas coisas. Eu fiquei desesperada, B. E você, do seu modo impassível que não completa meu pensamento, sempre tolhido e inacabado, ficou me olhando, e eu me perguntava o porquê.

Chegaram os outros, fomos à praia e você ficou. Eu, impulsiva e carregada pelas superficialidades dos outros, fui com eles, sorridente com indiferença por fora, mas por dentro eu irradiava preocupações inquietas, elas corriam rápido o meu sangue e me batia muito o coração, eu estava preocupadíssima com o que aconteceria, desejava gritar e obter respostas, mas nada disso me foi concedido. Voltei logo da praia com uma desculpa qualquer, e você não estava lá.

Por isso, sentei-me calmamente no segundo degrauzinho da porta de entrada para esperar B. Fiquei olhando para o jardim, observando a força do vento balançar as árvores e revelar o branco das folhas por baixo, que quando quietas permaneciam apenas no seu simples e indiferente verde. No entanto, movimentavam-se muito as folhas – brancas embaixo, rumorzinho de folhas por vezes verdejando. E eu ali esperando, esperando e pensando onde estaria B. numa hora como aquela, que não em casa ou na praia, e o que estaria passando pela cabeça de B., ou também o que de fato havia acontecido naquele recorte da manhã, por que daquele vento repentino. Mas o que me restava somente, sentada, apoiando os cotovelos no joelhos – quando os tirasse, os joelhos estariam marcados -, pois nada acontecia (algo haveria acontecido?), o que me restava, sem poder dizer uma palavra sequer, afunilava-se tristemente neste esperar. Pois tendo em vista o passado, só havia aquele ar estranho e absurdo, tornando-se uma espera de Sísifo. E o desespero quieto em que aos poucos mergulhava meu espírito provinha apenas da imaginação, pois eu não tinha o que fosse palpável, ou o que se distanciasse em absoluto de imaginar – o que eu tinha requeria uma continuidade minha, minhas fantasmagorias.

B.

eu te mandei um bilhete, você recebeu, não é, B.?, eu o escrevi correndo e ele acabou não parecendo com nada, pois eu certamente me atropelei para escrevê-lo – quando vejo vivi assim, me atropelando sem os amansos – e na verdade é possível notar que em aparência o tal bilhetinho é brando e leve, sugestivo de uma felicidade, mas eu sei que nele há um peso contraditório por trás e esse peso foi em razão de eu ter escrito este bilhete por um impulso muito forte porque eu estava sentindo saudades. eu estou com muitas saudades de você, B., e essas saudades – embora o nome seja muito bonito e as pessoas falem de um jeito bonito, como se houvesse muitas cores e curvas coloridas contornando a palavra toda pontilhada e movimentada de ornamentos, como se o relato das saudades do outro fosse uma evasão de movimentar fluido o olhar e o pensamento – são pesadas como uma mochila de acampamento que se está carregando há 12 horas sem tirá-la das costas, sem comer nada durante todo o dia e além do mais está chovendo e ventando, portanto logo se ficará resfriado pela friagem, logo fica-se doente sozinho!, o céu todo cinzento – e são também incômodas nas minhas costas e no meu estômago. parecem com uma dor, porque a dor impacientando fica inquieta incômoda sem dar nenhum intervalinho para quem a sente sem pausas de sentir. e quando ela parece finalmente ter desaparecido, e então se pensa: eu não estou mais sentindo saudades!, é aí que se começa a mentir para si mesmo, um engano que, se descoberto, seria chamado de loucura, – mas é na realidade muito comum – a que todos incorrem, fingir-se para si mesmo um costume lotado de enfeites, como uma fantasia colorida demais e por isso muito triste, nós mentimos tanto!, e isso é como um costume triste. é aí que o peso inquietamente gravita até a cabeça, e tenta empurrar esse vazio para fora dos olhos, é preciso expulsá-lo!, empurra-se um choro embotado, é impossível de chorar. essa saudade é assim tão difícil e contraditória, B., porque é uma saudade calada, eu não tenho nenhuma possibilidade de dizer nada a você. saudades em silêncio, eu acho, são um segundo pior peso de amar sem dizer que está amando (como se não se estivesse amando nem um pouco, como se o amor ímpar disparatado fosse algo a se conviver) e o pior é que nem a palavra amor nem a palavra saudades sequer se aproximam do chão infelizmente real, não podem transmitir o real da minha doença solitária, sem intervalos – e eu estou com tanto frio! – eu a sinto nas minhas costas e no meu estômago.

foi por isso que eu te mandei aquele bilhete, você o recebeu, não é, B.?

Sexto acontecimento

03/12/2009

“Eu resguardava meu talvez”

No bilhete com a letra de B. se lia:

“Eu estava sentada ao lado de fora, com o livro aberto recostado na grama; e naquele exato, ou talvez neste momento, não se pode dizer seguramente, eu não estava lendo, e sim com os olhos parados numa florzinha (vermelha, azul ou amarela?) pois acabara de ler um parágrafo realmente muito bonito, tão insinuante sobre aquele garoto de 10 anos e a criada que o enchia de beijos; veio aquela sublimação – aquele instante curto todo carregado de si, que torna o sentir mais aguçado para as cores das flores. (Se elas são diferentes ou mesmas em sua condizente variação de vermelho azul ou amarelo). Nesse tão breve intervalo de completude em que eu sem esforço me concentrava na florzinha e nos seus significados, bem neste momento (pois poderia ter sido em um outro) ergui os olhos por te ouvir passando. Tão familiares aqueles passos te custando – embora a familiaridade fosse toda minha e nada sua, você nem sabia que eu estava assim familiarizada com os seus passos (quem se detém tanto em passos, se eles se arrastam ou não, etc, afinal?). Quando ergui os olhos, você toda sem adornos, toda você inteira – e isto eu sempre estranhava – imediatamente fixou o olhar em mim, sentada na grama lendo o mesmo livro de capa verde da manhã (talvez foi isso o que você pensou), a capa lembrava flores verdes. Eu sinceramente não sei o que passou pela sua cabeça àquela hora, B., pois você às vezes fala com espontaneidade mas às vezes não fala nada – e naquele instante eu cogitei se você falaria como de manhã, ou não. E então você me olhou e continuou andando, sem desviar os olhos de mim, sorriu um pouco com os lábios fechados (vi as curvinhas ao lado da boca – eu gosto de quando você ri assim por causa dessas curvinhas) e – é só por isto que narrei tudo – você, mesmo ao ter já me ultrapassado, não abandonou os meus olhos muito abertos e curiosos, continuou caminhando, com seus olhos firmes, permanecidos em mim, e com aquele meio-sorriso – a cabeça teve de se virar um pouquinho – e os seus olhos sorriram com muito mistério. Você havia virado a cabeça para ainda me olhar! E então apertou um pouco as pálpebras (como eu nunca havia te visto fazer, mas como eu sempre te imaginei fazendo) e me chamou, sem dizer nada, com os olhos.

Porém eu não fui. Apenas continuei ali sentada, saboreando o meu momento pois, qualquer que tivesse sido minha escolha (nunca são irreversíveis, afinal) ele acabaria – como as aspas ou os parênteses sempre se fecham – o momento.

B.