Diálogo
02/02/2011
- Ok, estamos ambas num mesmo recinto sem fumaça. Para onde foi a fumaça. E por que ela precisa estar aqui, o que você quer dizer com ausência de fumaça.
- Não sei, só precisei iniciar e então escolhi ao acaso um tema. Ah, sim, tudo bem.
- Estão escrevendo ali um monte de frases de efeito, cuidado para não cair no mesmo buraco, a narrativa pode seguir sem isso. Você fica tanto tempo sem escrever e olha o que surge das cinzas; nada surge são apenas as cinzas. Não me venha com autocompaixão.
- Como logo toda fumaça se esvaiu e nós duas somos as duas únicas presenças da pequena sala, algo como uma tensão começa a nos envolver, presas sem objeto de diálogo. Sem deduções possíveis, ambas estamos quietas como baús e nada sai de nós, estamos preenchidas pela determinação – e isso já diz algo, tudo pode dizer algo até a exaustão – em silenciar. Ambas sabemos o quanto não é possível nos abrirmos uma para outra, nossos baús então permanecem fechados. O que sobra para quem narra é dizer essas coisas, contornar a superficialidade das coisas, tocá-las de um modo escorregadio. Nada de profundidade, por favor, já estamos fartas disso (é por isso que permanecem cerradas em seus baús?).
- Frases de efeito.
- As dúvidas também não têm seu lugar, já para fora com a fumaça. Sem objeto de discussão, e ainda com o que escrever. Mas o que é escrever, é só a superfície, nada encontrariam aí se não fosse a escrita. Perguntam por cigarros. (Já estou captando suas características, são obsessivas e ansiosas, querem retratar com os cigarros). Cigarro é uma presença estúpida na narrativa. Todos já sabem e pior ainda é se irritar com isso. Ai, me irrito tanto, tanto. Cuidado para não exagerar nos advérbios. Eu já sei! Mas ela, em minha frente, dita a regra de fingir; as duas saem incólumes.
- É, muito contato traz a exposição, não tem jeito, é preciso só criar imagens e se esconder por trás delas.
- Algo como um repórter as espreita, estou certa disso. Estou, sim. Espere, vamos voltar pois daqui já dá para tirar muitas alegorias, alguém vai citar Beckett para lamber seu saco ou até mesmo o próprio saco.
(prefiro ficar de fora, só estou observando).
- Olha aquele ali, está só observando e se acha superior. Quem só observa se acha superior, mas na verdade não se implica, então é certo que é covardia.
(ele tem certezas demais esse aí não vai muito adiante do próprio círculo)
- Cada um determina a própria personalidade como quer, coesa, perturbada, dissonante, e então pode seguir a vida, alguns não determinam e deixam os outros determinar. Mas o problema é que os outros sempre determinam. Tem razão, mesmo quando não deixam.
- Então, depois disso elas podem fumar um pouco, já que estamos predispostos a arejar esta relação. A sala é pequena e, sim, tanta presença para lidar, uma única presença é muito, ainda mais se não conversam tanto o silêncio é para poucos. Há mesmo muitos lugares para ir, precisamos nos ater a um e então o que permanece à margem pode ser excluído. Escolher sempre foi difícil para mim, mas também penso que o silêncio é para poucos. Conversas, conversas, conversas, e as maldades se amontoam todas no silêncio.
- Se você quer ser levado a sério, sim. Até as letras precisam estar na ordem, quem dirá os pensamentos. Já estou organizando, agora vá embora porque você está me atrapalhando. Tudo bem.
(quem disse isso? cochilei por alguns segundos)
- Frases de efeito e alegorias, que piada essa sua pretensão. Grande coisa, a autocrítica está aí, circula, nenhuma surpresa, nada de novo, e quem disse que
- Já chega, já é suficiente essas duas presenças e nem nelas dá para prestar atenção, a escrita nos leva para outros lugares, mesmo, algo como um controle, mas e então, quer ou não quer é pegar ou largar. Está bem, então, esqueçamos e voltemos à tradição estou mais confortável sem inventar, trabalhar, desenvolver, intervir, recompor, ensinar ou senão retroceder ou mesmo ambas. Claro, sem dúvida que são possíveis, todas essas coisas são os parâmetros com os quais lidamos diariamente, é claro que a inconsciência está aí e sabemos. É, inclusive, o que as atormenta (pude voltar às duas personagens dessa narrativa, e o meu devaneio não passa agora de fio condutor! É muita conquista para pouco esforço mas mesmo assim tomo o crédito).
- Eu estou cansando o leitor. Tá bem, vamos tentar um outro dia, os parênteses estão diferenciando demais. Não, por que você termina assim. Ficou clichê, né. Hahaha, ela quer escapar do clichê.
03/02/2011 às 2:09 AM
“A sua luta com as palavras era geralmente dolorosa e isso por duas razões. Uma era a razão comum a escritores desse tipo: atravessar o abismo existente entre expressão e pensamento; a enlouquecedora sensação de que as palavras certas, as únicas palavras, estão à sua espera na outra margem sob a névoa distante, e o tremor da ideia ainda despida reclamando por elas deste lado do abismo. Ele não fazia uso de frases feitas porque as coisas que queria dizer eram de constituição excepcional e ele sabia além disso que não se pode dizer que nenhuma ideia real exista sem palavras feitas sob medida. De forma que (para usar uma comparação mais próxima) a ideia que só parecia nua não estava senão pedindo as roupas que usava para se tornar visível, enquanto as palavras à espreita ao longe não eram cascas vazias como pareciam, mas estavam apenas esperando a ideia que já escondiam para incendiá-la e pô-la em movimento. Às vezes, ele se sentia como uma crinaça a quem dão uma mixórdia de fios e mandam que produza uma maravilha de luz. E ele produzia; e às vezes nã otinha a menor consciência de como conseguia isso, e outras vezes ficava pensando nos fios durante horas no que parecia o modo mais racional – e não conseguia nada.” (Vladimir Nabokov; A verdadeira vida de Sebastian Knight) Achei um tanto Nabokoviano o seu diálogo. Adorei! um abraxxxxxx