“Eu resguardava meu talvez”

No bilhete com a letra de B. se lia:

“Eu estava sentada na grama ao lado de fora, com o livro aberto recostado na grama; e naquele exato, ou neste momento eu não estava lendo, e sim com os olhos parados numa florzinha (vermelha, azul ou amarela?) pois acabara de ler um parágrafo realmente muito bonito, tão insinuante sobre aquele garoto de 10 anos e a criada que o enchia de beijos; veio aquela sublimação - aquele instantezinho todo carregado de si, que torna o nosso sentir mais aguçado para as cores diversas e mesmas das flores. Neste tão breve intervalo de completude em que eu sem esforço me concentrava na florzinha e nos seus significados, bem neste momento (pois poderia ter sido em um outro) ergui os olhos por te ouvir passando. Tão familiares aqueles passos te custando – embora a familiaridade fosse toda minha e nada sua, você nem sabia que eu estava assim familiarizada com os seus passos (quem se detém tanto em passos, se eles se arrastam ou não, etc, afinal?). Quando ergui os olhos, você toda sem adornos, toda você inteira – e isto eu sempre estranhava – imediatamente fixou-se em mim, sentada na grama lendo o mesmo livro de capa verde da manhã (deve ter sido o que você pensou), a capa lembrava flores verdes. Eu sinceramente não sei o que passou pela sua cabeça àquela hora, B., pois você às vezes fala com espontaneidade mas às vezes não fala nada – e naquele instante eu cogitei se você falaria como de manhã, ou não. E então você me olhou e continuou andando, ainda com os olhos em mim, sorriu um pouco com os lábios fechados (vi as curvinhas ao lado da boca – eu gosto de quando você ri assim por causa dessas curvinhas) e – é só por isto que narrei tudo – você, mesmo ao ter já me ultrapassado, não abandonou os meus olhos muito abertos e curiosos, continuou caminhando com os olhos pregados em mim, e com aquele meio-sorriso – a cabeça teve de se virar um pouquinho – e os seus olhos sorriram com muito mistério. Você havia virado a cabeça para ainda me olhar! E então apertou um pouco as pálpebras (como eu nunca havia te visto fazer, mas como eu sempre te imaginei fazendo) e me chamou, sem dizer nada, com os olhos. Tão tênues suas insinuações… E você me provocava.

Porém eu não fui. Apenas continuei ali sentada, saboreando o meu momento pois, qualquer que tivesse sido minha escolha, não havia jeito, ele acabaria - como as aspas ou um parênteses sempre se fecham - o momento.

B.

- Você é onipresente, B.!

- É… Acho que sim, pode ser…

- Você está sempre em todos os lugares, veja, está nos jardins, nas salas, ou quando subo as escadas, lá está você, em pé no final do corredor, ou descansando no corrimão com todas aquelas coisas que você carrega – por vezes olho mais para esses objetos do que para você – e então eu desço lentamente as escadas em direção aos jardins e no último degrau levanto os olhos - contudo, ninguém me vê levantando os olhos pois faço isto muito rápido – e dou com você – veja só como tenho uma boa memória! – de cabelo preso ou solto, esses fios menores que não se prendem junto aos outros, presos por inúmeros grampos – é impossível de contá-los – ou soltos também, mas logo não tenho dúvida de que é você, jamais demorei para te reconhecer, você é tão reconhecível e onipresente! Penso até que estou vendo coisas onde elas não estão, pessoas no lugar que no momento elas não ocupam, penso, por um momento, que pode ser isto - mas logo percebo que não é, é mesmo você em todos os lugares, ali, parada ou caminhando, quieta ou faladeira, com a testa franzida ou se exaltando em altas gargalhadas que eu ouço com prazer - a risada dos outros é uma janelinha que se abre - porém passo rápido e finjo que não as estou ouvindo, pois é você quem está onipresente e isto não é minha culpa. Embora não possa afirmar que não seja de meu interesse… Entretanto, quem é que pode falar em culpa numa situação dessas? Interesse, talvez… Mas não culpa, certamente.

- Sim.. Você tem razão, haha… Estou sempre por aqui, não é… Por aqui e por ali.

- Sim, B.! Porque é que você faz isso, por que está sempre nos lugares? Hein? Sabe, eu te vejo aqui e ali, te vejo repetidamente sem poder mostrar que vejo e sem poder perguntar “Por que é que você é onipresente, B.?”, embora talvez não seja de minha conta a razão pela qual você é onipresente na minha perspectiva. Talvez seja uma onipresença apenas objetiva e casual, mas ela é tão intensa que eu não posso mais acreditar em casualidades, tire todas essas casualidades da minha frente! por que eu quero logo ver a coisa despida desses revestimentos cotidianos, quero ver o que está no cerne da questão e essa questão é a sua onipresença! Sei que é no cerne que estão as coisas, os revestimentos são enganosos e bambos – podem desabar a qualquer momento, tais madeiramentos precários, feitos com pressa por operários mal-pagos, exaustos. É assim que aprendi: a verdade não está nos acontecimentos. E eu estou mesmo cismada com isso, tanto que não sairei daqui até você me dar todas – espero uma hora, se for preciso, me diga as cem razões, se houverem cem, posso ficar uma hora e quarenta minutos e daí você me conta uma razão por minuto - as razões pelas quais é onipresente, e me diga ainda, B., eu sou uma delas? Parece que sou, no entanto não posso afirmar com certeza e isto me deixa muito insegura e perturbada, não sei lidar com isso direito, então, por favor, me esclareça, discorra longamente – você não é tão boa com descrições? – sobre tudo o que está se passando por dentro de você.

- Temo que, bom, talvez não seja assim, não são razões definidas, nem eu as conheço bem, estão misturadas…

- Ah, não me venha com essa velha história de: “não são razões definidas, nem eu as conheço bem, estão misturadas…”, por favor, nem comece com essa velha história! Eu te vejo nos lugares, sempre em todos os lugares e isso me perturba, percebe, me perturba tanto a ponto de eu perder todas as minhas defesas e camadas morais, elas caíram porque a curiosidade é como um imperiozinho! Hein? Não foi você mesma quem disse que a curiosidade é como um imperiozinho? (Mas você usou uma metáfora, e não um símile, eu sei, não pense que eu não sei porque eu sei). Veja só, agora sou eu quem vai usar uma metáfora para você compreender melhor o que estou querendo dizer. Imagine um prédio em construção, B., um prédio que se constrói lentamente – porém mais rápido do que se esperava – em frente ao seu pequeno sobrado. Você observa a evolução todos os dias, por que tem um horário marcado para sair à janela, apoiar os braços no espaldar de madeira e observar como anda a construção. Logo no primeiro dia, no primeiro andar, você me vê. No segundo dia, você sai à janela já meio esquecida do dia anterior e me vê novamente – nova surpresa. No terceiro dia, vai olhar mais esperando a surpresa do que a obviedade do terceiro andar. E assim sucessivamente. Qual seria o seu estado de espírito, vamos supor, no centésimo dia?

- Não cisme tanto com isso, não é nada, não é nada…

- Como, nada? Claro que é alguma coisa! Se eu estou me queixando em todo este discurso cansativo – pois há, naturalmente, conversas brandas e conversas extenuantes – para a minha cabeça, isto é por certo alguma coisa – no mínimo uma coisa grave e urgente! Eu estou perturbada e sem chão, B. Estou perturbada e não sei mais onde apoiar os pés.

- Talvez é porque eles nunca estiveram apoiados em lugar algum e só agora é que você se deu conta da fatalidade… Ou, mesmo, é porque durante a vida toda acomodaram-se neste apoio e agora não o têm mais, simplesmente.

B.

desenho

18/11/2009

olhos de longe, grandes e limpos
que eu os quero aprisionar
mesmo que imensos
eu os alcanço
ainda que tão longe

gostaria de desenhar os olhos que não esgotam em mim
me machuca deles essa insolidez
de escorregadios ao tempo

como sorrateiros e esquivos
demorados
me provocando sua insistente
indiferença

como, da paisagem, a terra empapada
por baixo de folhas
que eu assopro e a dispersão:
deslocam-se em sussurros
não estalam como se pisoteadas

e a terra insiste deitada
em silêncio
e fértil
inesgotável

os olhos, permanência
inesgotável
tempo diverso

e se alguém passasse corrido e
no silêncio de armadilha funda
caísse
sem os ver
tal abismo mudo

pois não havia nada por baixo das folhas

e ainda
gostaria de os desenhar
ainda
minha irresolução, matéria muda
meu tempo diverso, permanente e lúcido:

eles estão à luz
tão à luz e

a sombra não os alcança
mas é como os alcançasse
sou eu que não os alcanço
mas é como os alcançasse

B.

passeio

16/11/2009

passando
eu distraída nisso:
olhos no passear
passo dela prolonga o continuado
levar-se lento
custoso

o andar o corpo, a densidade

de qual maneira eu destino esse um passoar
perguntei, pois o variável:
causava o arrastado por funda dificuldade
(o arrastar o corpo)
ou figurava
(o andar desapegado o corpo)
aquele um seu ser jeitoso, desescolha, já sendo?

B.

recortes

05/11/2009

de um dia ensolarado
são ainda mais ensolarados na sua cor
uma temperatura negligente
em matizes
de vestidos e canelas e saias e ombros

B.

E enquanto caminhasse pela areia, olharia para os poucos guarda-sóis espalhados por aquela praia vazia. Quase 4 da tarde (no entanto, poderia ainda ser bastante de manhã, contanto que houvesse sol, poderia ser também logo depois da hora do almoço, com a praia um pouco vazia pelas barrigas roncando que fizeram com que quase todos, esbaforidos, corressem a almoçar), ainda bastante sol, e por isso algumas pessoas manter-se-iam asiladas daquela luz intensa e já curtida pelo dia. Algumas pessoas tomariam sol (ou não tomariam, não se sabe o que se pode acontecer nessas aleatoriedades, é possível que, por mera casualidade, naquele dia não houvesse ninguém ao sol, ou todos ao sol, ou alguns ao sol e outros não, não se sabe e fica-se muito inseguro com todas estas possibilidades). Se houvesse alguém se abrigando do sol, sob um dos guarda-sóis, bem próxima do mar, esta seria você, e vendo-a eu não acreditaria (dentre todas as possibilidades de pessoas abrigadas ao guarda-sol, justo neste dia em que haveria alguém sob o guarda-sol) mas ao mesmo tempo seria apenas uma confirmação de expectativas de que a tanto tempo eu me munia. Você, como se estivesse pensando no mesmo ao me encarar com tanta naturalidade (mas você poderia estar pensando sobre outras coisas também, como por exemplo, no livro, como era curioso aquele livro - porém, rondava-nos sempre aquela possibilidade de que seria apenas um dia em que você estaria receptiva a leituras, nunca se sabe, os estados de espírito são outro fator muito descontínuo e intrometido – você poderia estar pensando também sobre o que comeria no almoço, cozinhar, ir novamente (ou pela primeira vez) ao restaurante, etc.) você me encararia com naturalidade, tiraria os óculos e colocaria, devagar, o livro na areia - eu esticaria meu olhar, tentando rapidamente descobrir qual livro era aquele, para procurá-lo depois (moveria esta leitura posterior pela busca de referências, a busca incessante de referências as quais lançariam simetria aos meus sentimentos, concretas, absolutas (não há dúvida de que isto é uma referência!), provavelmente inexistentes, contudo tais achados também dependeriam de meu estado de espírito, de mil casualidades), você, depois destes gestos (ou outros), se levantaria e me daria um abraço (este abraço é necessário, ele não poderia ser substituído por nada além de um abraço exatamente assim), numa surpresa bem-recebida, e eu sentiria a sua pele quente e um pouco suada pelo calor, a sua pele toda pois você estaria só usando biquini naquele abraço dos corpos inteiros. Algumas palavras, só, não precisaríamos muito delas pois aquele encontro por si nos encheria por dentro (além disso - e isso é uma coisa que não se diz – as palavras o estragariam, poderiam arruiná-lo por completo, tal é a casualidade excessiva de conversas desta natureza), completaria nossas mentes até a incompletude, até despontar o desejo de enchê-las ainda mais com alguma coisa que ainda não tinha chegado, e então você diria: me acompanha até em casa? vim sozinha e é duro, depois de um dia na praia (ou metade de um dia, se fosse ainda de manhã, ou pouco depois da hora do almoço), carregar tudo isso sozinha, etc. (mas as suas palavras poderiam também tomar um caminho diferente, não haveria absolutamente a necessidade de que fossem estas as exatas palavras, a casualidade aqui seria bem-vinda). Caminharíamos lentamente pela calçada, ouvindo apenas o barulho dos chinelos se arrastando pelo cansaço do dia, as cabeças abaixadas pela luz, alguns gritos de crianças que brincavam na rua intercalando-se aos nossos sorrisos sem motivo para um observador de fora (no quê estão pensando? por que estão sorrindo?).

As cadeiras no quintal todo cheio de plantas (ou de flores, ou de pedras), nós já estaríamos dentro da sua casa e você, com toda a naturalidade familiar que a nossa atmosfera lhe proporcionava, tiraria a canga, a parte de cima do biquini (“você se importa?”, “claro que não, fique à vontade, B., lá na minha casa nós também fazemos isto, quero dizer, na minha casa que tem piscina” – eu poderia continuar infinitamente nestas auto-correções) e, após uma ducha muito rápida (tudo bem que fosse demorada), quase inteiramente nua, mergulharia, num desejo acumulado desde o calor da praia (fosse bem à tardinha e este desejo estaria já insuportável, transbordando de si), na piscina (haveria uma piscina na sua casa, mesmo que não haja de verdade, e mesmo que não haja uma piscina na minha casa (já que eu comentaria sobre a piscina da minha casa), eu poderia ter dito, talvez, que houvesse, se a ocasião permitisse, se eu tivesse mesmo uma piscina enorme, etc.). E eu ficaria ali parada, encantada e sôfrega, esperando sua cabeça emergir sedutora da água, com os cabelos já todos penteados para trás pelo mergulho, e depois, esfregando os olhos, abri-los-ia bem em minha direção, e faria um sinal com a mão. Eu, aceitando-o, ficaria toda nua, após ter percebido que sua parte de baixo do biquini estava já escorrendo numa das beiras da piscina (mas quando foi que ela o tirou? eu, afinal, olhava atenta, em todos os segundos, não houve intervalo para ela ter tirado o restante… mas são tantas as possibilidades! Nunca se está seguro sobre coisa alguma). Eu faria questão de jogar ali também o meu biquini, e você estaria olhando atenta (eu pensaria: você sabe disso, enquanto eu não soube – não há simetria possível - tem partes de você que, descontínuas, me impõem mistérios), e, respeitando a norma da ducha (talvez fosse apenas casualidade, mas poderia ser norma e se fosse norma você não iria gostar de que eu me jogasse e espalhasse toda a  minha areia pela piscina, essa areia que por certo se depositaria, depois daquela agitação, no fundo, incômoda para quem pisasse sem força – os dedos roçando os grãozinhos - no chão da piscina), mergulharia e logo a sensação nova seria respirar (é claro que eu estaria respirando, ainda que pouco, antes (as sensações se renovam como uma palavra que não nasceu), entretanto seria agora um respirar diferente, sôfrego, próximo) bem próxima do seu rosto me olhando firme. Eu poderia ver os reflexos oscilantes do seu corpo se dissimulando na água (oscilavam incertos), e de repente sentiria você se aproximar do meu rosto todo molhado, segurando-me nas costas escorregadias de corpos na piscina, uma proximidade infinita, e você (sem me beijar) permaneceria apenas me sustentando firme nos olhos, aqueles olhos da cor da piscina (ou do mar, ou do mais fundo do mar), ainda mais coloridos quando vistos de tão, tão perto.

B.

obsessão

02/11/2009

uma criança, por falta do que fazer
procura um brinquedo
um brinquedo sob esconderijo de outros
espalhados ao chão

mas não o pode encontrar
 
olhos infantis sôfregos
caçam, em meio a coisas indiferentes,
o brinquedo,
as mãos intrometidas emaranham
mais os outros brinquedos
como quem prediz nesse atropelamento, feito alguém
que diz com os olhos:
aqui está toda minha obstinação.

(olhos inconscientes de que suportam firmes
a seriedade firme de uma criança)

olhos sérios que brilham sôfregos
olhos brilhando como só brilham olhos faltosos
insaciáveis de achá-lo
despudorados de achá-lo

súbitos
são vítimas de um sobressalto
está ali!
o que se procura,
o que se procura de repente insuflado de importância sem motivo

e na confusão seguinte ao instante que foi embora, tão súbito
já não se sabe mais onde se viu o que se procura
apenas entrevisto,
zombeteiro

já não se sabe mais o que se procura

e no entanto o que se pode fazer?
insistente é aquele contínuo revirar dos brinquedos
pelas ansiosas mãozinhas
o contínuo remexer das mãozinhas esbaforidas
por tê-lo pressentido, um relampejo,
um imperiozinho
emaranhado em todo o resto.

B.

Abandono

22/10/2009

E deitada assim – uma mão sob a cabeça, os joelhos esticados sobre o colchão – esperava, olhando pelo grande retângulo da janela, como se não estivesse esperando por nada. Em aparência todo o seu corpo permanecia daquele modo sem esforço - era assim que alguém que entrasse no quarto avaliaria B., estirada, o olhar escondido em sombras que se derramavam contínuas no corpo de B., o ambiente todo imerso num escurecer forte que só dava importância às formas - quem entrasse, ao se deparar com tal confirmação do que estivesse esperando, sentir-se-ia plenamente satisfeito com o que viu e logo deixaria o quarto.

B. não notaria esta pessoa que, sorrateira, entrasse, saísse, e nem esta pessoa perceberia de fato o que estava ocorrendo com B., porque B., além de manter firme o olhar - a região acima do nariz enrugava-se em três dobrinhas - para além da janela, estava toda encoberta pelas sombras, que eram como roupas estranhas, por causa daquele entardecer escurecido (uma estreita faixa ensanguentava delicadamente o céu).

B., mesmo com o entrar e sair turvando o silêncio, mesmo que fosse, em outras ocasiões, muito atenta, não notaria o que se passou e permaneceria assim estirada. Tanto que, nesta infusão de abandono, obsessão e impulso silenciado, B. não perceberia a própria mão se fechando com força, e as unhas, há dias não cortadas, apertariam muito a pele fina de dentro da mão, de modo que, se abrisse a mão, ainda que logo depois de tê-la fechado, veria – se houvesse luz - as quatro marquinhas violentas sobre a pele fina da palma da mão.

B. - caso a pessoa resolvesse se demorar por mais alguns minutos e perguntar à B. alguma coisa - se fosse questionada pelo acostumado: Tudo bem? – perderia a razão (é assim que costumam dizer, “perder a razão”, já me disseram isto uma vez, ou mais de uma, pensou B.), a razão que já ameaçava ir embora e queria deixar B. sozinha, os pensamentos flutuando, abandonados, sem ter onde firmar os pés (não se assemelhariam sequer àquela ave decidida que acabava de cruzar a janela, de um lado ao outro, o voar amparado pelas próprias asas). B. levantar-se-ia num impulso, esconderijo das lágrimas, e gritaria inúmeros palavrões, muito brava, para esta pessoa, e mandaria ela se retirar imediatamente porque B. não queria mais ser incomodada daquele jeito, onde já se viu entrar assim num momento como aqueles, você não percebeu nada, que falta de tato, saia já daqui.

B., além de manter firme o olhar para o céu mais escuro, sentia-se estranha e pensava em coisas estranhas, imaginava o que não lhe era permitido vasculhar, impregnava-se de tremores por dentro, desejava fortemente despedaçar ossos, rasgar, com os dedos, uma superfície de pele macia - pequenas gotas, demoradas, escorreriam com delicadeza, contínuas no seu vestir incompleto a pele à mostra. (Conseguia, nas imagens disparatadas de sua memória, apenas se lembrar de uma mulher caminhando (se a pessoa que entrasse em seu quarto perguntasse: quem? B. não saberia se responderia a esta questão) e sendo recortada pelas retas da escada, enquanto B. abaixava casualmente os olhos, ali de cima da escada - tomara um susto petrificado ao ver o que viu, o que não se estava esperando (por que não podemos esperar pelas coisas? – perguntar-se-ia). E logo depois repetira-se a aparição, agora um homem, e B. encarregou-se de colar infantilmente os espaços vazios do desconhecer.)

Se as palavras pudessem lançar uma ponte com os sentimentos sem nome, o que sentiria seria como o que os olhos contemplavam: via-se muito, pela moldura de madeira ser grande, mas ao mesmo tempo via-se muito pouco, só um recorte de tudo naquela restrição retangulada. (Se alguém entrasse, diria: feche a janela, B.! já está na hora!, mas não, B. não poderia fechar a janela). De nada lhe seria útil fixar com tal dedicação o olhar num mero recorte, para nada lhe servia a aparência, a verdade. B., ainda estirada, estava agora trêmula, impotente. Se pensasse sobre isto, julgar-se-ia apenas uma fumaça, uma nuvem dissolvida e fraca perante a força desumana dos fatos.

Mas se alguém entrasse no quarto à escuridão daquela hora, não veria nada, sequer B., e abandonaria o quarto como se não fosse preciso ter entrado ali (como se nunca ninguém tivesse estado ali).

B.

B., tendo avançado até a frente da sala, lançou um olhar para trás e, numa compreensão tardia, prolongou-se em sua pequena decepção: uma cadeira, para onde olhava, estava sendo ocupada. Aquela cadeira agora indisponível! Gostaria de se ter sentado ali. Mas agora já estava ocupada (agora já foi! pare de pensar nisso, B. - diriam) ocupada por outra pessoa, um grande homem sentado ali e não havia mais meio de sentar-se ali, já foi dito que B. chegara tarde demais. Ainda olhando para trás, percebeu-se entristecida e boba, afinal, quem ficaria assim, tanto tempo em pé, quando todos já estavam sentados, quando já tentavam prestar atenção. Tinha um lugar seu, vago, não queria este. (No momento em que chegara sequer trazia desejos, mas agora tudo já se havia convertido numa grande decepção. O seu ser se arredondava naquele mundo pequeno de problemas, uma esfera cheia de tensões, vazia de sentido, cheia de vontades, vazia de vida.) Sentou-se, pensativa.

A outra, acomodada na cadeira de trás, perceberia o atraso, aquele prolongamento despropositado da outra e não o compreenderia, não a compreenderia. A curiosidade, um imperiozinho, afrouxava furiosa os outros pensamentos, e estes restos de pensamento iam aos poucos se estreitando, desvalorizados, até sumir - demoraria-se deste modo, pensativa, e tudo o que estaria se esparramando pela sua cabeça flutuaria sobre, uma a uma, as cem razões – por que somos tão ignorantes? – pelas quais B. demorou-se assim, por mil segundos a mais do que o esperado, olhando para trás – não teria enxergado direito pois estaria ainda sem os óculos, e agora já estaria colocando os óculos, mas agora já seria tarde demais. Não saberia se o olhar da outra havia de fato recaído sobre ela, não saberia sequer se fora mesmo um sorriso insinuado o que teria visto pela metade naquela distância tão grande, ou um levantar inseguro da mão num aceno frouxo, importante – a coisa mais importante do mundo. Deixaria-se abandonar, pensativa.

Pensou: eu gostaria de que estivéssemos sentadas, lado a lado, fingindo prestar atenção mas na realidade querendo em todos os segundos virar o rosto para o lado, para poder observar longamente a expressão naquele segundo, no próximo, da sua cara prestando atenção em outra coisa. Como era interessante a sua natureza desprendida dos olhares dos outros e muito concentrada em outra coisa, ainda mais com um olhar tão próximo desdobrando os seus traços, ansioso, profundamente ansioso. Você, então, viraria-se duas ou três vezes durante o tempo em que estivéssemos sentadas uma ao lado da outra, mas viraria-se com o propósito definido – para que virar senão por uma determinação precisa? – de comentar alguma coisa ao meu ouvido, numa vozinha trêmula, e para mim esse timbre inseguro dos sons significaria algo outro e o comentário seria de natureza muito mais decisiva. Eu gostaria de que as suas palavras estivessem distantes dos seus pensamentos - seriam apenas um intermédio errôneo do que você e eu estaríamos pensando, tão mais próximo, como aquela proximidade real, irreal. Você faria estes comentários sem sentido ao meu ouvido, e de vez em quando desenharia algumas coisas, distraída (de verdade, de mentira), nas beiradas da folha do meu caderno.

B.

e eu, logo ao lado, estaria lendo, ou melhor, apenas com os olhos parados no livro, olhando - o banco inquieto pelo entorpecer leve do ônibus - olhando, sem absorver nada dali - já haveria voltado os olhos para o início do parágrafo cem vezes, não entendera uma palavra sequer – pois haveria, dentro de mim – como às vezes simplesmente há, sem querermos - palavras outras sendo ditas, berradas, agitando por dentro da minha cabeça a tal ponto que tornaria-se impossível ler. Ou melhor, não seriam bem palavras, mas sim sentimentos sem nome, uma onda que fluía e refluía por dentro, ou melhor, não seria como uma onda, mas sim uma agitação (tal é a facilidade que a abstração dos conceitos traz, mas só às vezes), uma agitação feroz sem fim que se debatia solitária, perturbando-me para sair, contudo não seriam palavras que dariam conta daquela agitação sem nome.

e então, quando o entorpecer-me comigo mesma – fora de meu controle - estaria já beirando o insuportável, inconformado pela insuficiência das palavras, o ônibus pararia bem à sombra incompleta de uma árvore. a árvore teria pequenas folhas, todas muito juntas mas não juntas o suficiente, de modo que o meu livro seria pontilhado por luzes esparsas, incongruentes e com uma coerência tão delas! que eu ficaria espantada. as sombras bagunçariam-se, reluzindo, brincando, por vezes o espaço que, num instante anterior, estaria acomodando um recorte escuro e inquieto logo seria invadido por um raiozinho de luz orgulhoso de si. algumas reservariam-se apenas em forma de nuances, pois estariam inseguras quanto ao desejo de se assumir sombra toda enegrecida ou irradiar por si aquela luz mandona, e então elas não tinham certeza nem nome. assim, as luzes e sombras, no seu intercalar-se despreocupadamente, animariam o meu próprio pequeno espetáculo, dizendo todas elas, sozinhas em sua imprevisibilidade: todas somos uma inconstância!, ou: um quadro diz mais do que aquilo que diz (e não mostra), ou: foi tão diferente segurar-lhe a mão por alguns minutos… mas a vida logo acaba, B! é preciso dar conta desse recorte de vida, quantas palavras!, precisa-se de muitas delas para expressar emoções, ou: estou cheia de borboletas bagunçando o estômago, sentimentos pela metade, uma agitação. e, como eu me acalmasse assim contente pelas sombras terem cumprido o papel de dar forma à agitação sem nome, você, ao meu lado, diria, de repente:

- que bonita a sombra que a árvore fez! olha só, no livro, como as folhinhas são pequenas.

B.

e você viria do jardim, ou da sala, ou da porta de alguma sala, e, ao me ver, mudaria de direção por ter me visto - pois estaria indo para o outro lado – e então viria sorrindo em minha direção, dizendo “Oi, B.”, de um jeito sério mas sorrindo. Minhas palavras iriam todas embora nesse momento, o turbilhão amorfo – repentino, conhecido - que faz com que me sumam as palavras – elas vão mesmo embora, somem todas, tudo o que treinei sozinha, falando com uma B. imaginária – assuntos sérios, piadas, comentários e detalhes da minha vida – tudo isto sumiria só porque você mudou de direção para vir conversar comigo, você viria e diria naquele tom de seriedade “Oi, B.”. E então eu responderia, Olá, tudo bem, e você diria sim, e você?, muito bem, só um pouco cansada e enquanto eu falaria sem sentir o mesmo que as palavras, você pegaria a minha mão esquerda, olhando para os meus olhos e sorrindo com a boca e com os olhos, com o corpo inteiro, tiraria a minha mão apoiada no joelho e a seguraria na sua mão direita – seria a primeira vez que eu te sentiria nas mãos, a sua mão quente, a pele firme. Você não apertaria meus dedos, mas conservaria os seus segurando os meus com determinação, como se dissesse (sem palavras): não, fique, não tire a sua mão daqui, continuemos assim de mãos dadas por muito tempo.

e ficaríamos com as mãos dadas eu, dando forma às impressões (você me aceitava, entendia meus olhos), você, calma, impassível, achando certa graça naquilo tudo, e deste jeito conversaríamos muito, sem nos preocupar com o tempo que passava, com as pessoas que passavam, ou se já estávamos de mãos dadas por tempo demais.

B.

Confluência

10/10/2009

- E então?

Em aparência havia concluído seu longo discurso e, como quem quer confirmar consigo a coerência das palavras aglomeradas, um pouco de intenção, um pouco de abandono: ”foram reais?”.

B. ainda não respondia. Olhava-a insistente e profundamente nos olhos, sem arriscar.
As palavras aglomeradas se demoravam, demoravam tanto presas no terrível obstáculo que têm de ultrapassar – o medo – logo antes de rebentarem, como uma enorme onda que vai rebentar, expulsas pelos lábios abrindo, fechando -ainda, todas misturadas,
(em pré-estado
de letras,
em eterno estado
de semi-sentimentos)
- esperando uma resolução, dizer ou não dizer?, deveria se chegar logo a uma resolução. A resolução se demorava, zombeteira, estava já demorando muito. Ela, B., não falava, e com certeza não falaria mais, embora empanturrasse ainda a esperança das palavras que estariam por vir.

Pensava, somente, pensar sem dizer é como sentir pela metade – não é só sentir, não é só articular, é como uma onda que não rebenta – não é só a planície do mar, não é meramente a onda que se finaliza: acomoda-se em curva, conserva-se um arco cheio de si mesmo, completo em sua tensão.

Pensar sem dizer é como apaixonar-se em silêncio, como a natureza, e sempre havia sido assim, a paixão a arrebatava com sucessivos socos no estômago, socos que emudeciam, socos com violência, socos de raiva. Cobiçando e transbordando pelos olhos. Uma turbulência por dentro transtornando-a, incessante, sempre em seus terríveis brados intervalados, uma onda que, após violenta, volta a se acalmar, forma logo um novo arco e então rebenta, o eterno retorno - agora não é mais do que a costumeira planície do oceano. Tal é o fluir e refluir dos sentimentos em intensidade, um mar invasivo. Constantemente as expansões retornam, restituem-se - exceto em momentos, havia os momentos de paz ou de ausência, quando ela não sentia a si, momentos assim eram como uma ausência de si, um fiapo de ser sobrevivente se arrastando, boiando na água. Tais momentos, que não haja engano, eram muito bons e, é claro, raros - como tudo o que continua bom - e invadiam-na tão de surpresa, tão repentinos em sua lentidão!, pois ela estava sempre esperando, vivia a correr atrás de alguma coisa, não sabia bem o que era. Estava sempre esperando, portanto, um mar calmo permitia que ela ouvisse os pássaros, os passos, as pessoas conversando. Um mar que não puxava tudo para si (o mar sempre puxava tudo para si). Vivia a correr atrás de alguma coisa, não sabia bem o que era. Desejar sem saber bem o quê é como caminhar pela praia. E estes momentos tão belos e calmos, tão belos e calmos quanto uma caminhada à beira do mar anoitecido, infiltravam-se, lentos, penetravam-lhe o espírito como uma onda que não rebentou, molhando-a por movimentos leves, apenas umedecidos, bem quando ela não os estava esperando, tal é a vantagem de se caminhar distraído, sem estar procurando o que está por vir, o que não se deixa ver. Fica-se apenas umedecido pela coisa e não encharcado por ela.

Então, o que inundou, inesperado, seu abandonar-se: B. se lembrou, sem razão, de quando caminhava distraída, ”é tão bom caminhar distraído!” – pensou, lembrou-se de quando caminhava distraída, a não olhar por onde estava passando, pois sem gravidade tencionava chegar a seu destino, qual era o destino?, agora já escapava da cabeça. A lembrança - o não-se-diz - percorria o caminhar, ainda que no exato momento em que o percorrera, o caminhar, não prestasse a devida atenção cuja futura lembrança iria requerer, não prestava mesmo atenção em nada mas agora já se lembrava de todo este caminhar tão distraído. Passos em toda lentidão, arrastara os pés no chão que não lembrava mais (pisara em terra, paralelepípedos?) se era chão, se era água, apenas caminhava sem procurar. E, a turva surpresa, aproximava-se da outra. A outra - a mesma água, só que adiantada (tal não cessa o fluir a água) - um lugar tão inesperado!, agora já se lembrava de qual era o seu destino esquecido - esfarelado como areia - era a areia, lembrou-se de súbito por conta da outra que estava metros distante, pouco reconhecível (mas o suficiente para B. entrevê-la). B., infiltrando-se como a água que escorre em pequenos buracos deixados pelas conchas que abrigam pequenos animais, alcançaria aquele mesmo espaço minutos depois, aqueles poucos metros adiante no todo inacabado de pequenos farelos.

“Que inesperado!”, pensou.

O mar fluía, refluía, ecoando o barulho das ondas que chamariam tudo para si, tudo para dentro daquele mar anoitecido, quente. As ondas se repetiam primeiro leves, em movimentos profundos, com gosto salgado, penetrantes em seus sentidos aguçados, em seu cheiro forte. Encontro de ondas em movimentos opostos que se confrontavam e confluíam em uma luta consentida. Encontro de ondas em movimentos opostos, ondas que se tocavam e sentiam-se. Completas, sentiam-se por inteiro, queriam ainda mais sentir-se, encostando-se, como corpos inteiros a encostar-se num unir-se fluido, ofegante, estreito querendo ser mais estreito, profundo, desejando sem fim. Desejar incitava desejos mais insatisfeitos, tornara-se indissolúvel o fluir e refluir das ondas encontrando-se, encostando-se voluntariamente. Como num mergulho, penetravam-lhe simultaneamente os corpos num movimento ondulado, repetido, molhando-as – as ondas - num contato leve, as pernas e os braços em seu tatear leve, como lábios que se impregnam molhando-se reciprocamente, umedecem no mergulho dentro daquele mar quente, com gosto salgado, aquelas ondas que agora intensificavam-se numa compulsão violenta, em impulsos veementes, indissolúveis, quentes. Ambas as ondas – a que retorna, a que se aproxima – inundavam-se por mergulhos profundos, agitados, tal era o confronto, o oceano ardente (bradavam) o mar colérico. Repetições, corpos escorrendo, esvaindo-se em toques profundos, molhados, entregues como a um mar que tragava os abandonos (o imperceptível movimento provocante de trazer tudo para si).

Tais eram as ondas.

B. ainda não respondia.

Tais eram as palavras.

(“Foram reais?”)

E então voltou a si. Expirou, ou eram palavras, não se poderia distinguir, tal era o murmúrio - tão confuso, baixo, sequer ela ouvia o final de suas palavras, tornaram-se ininteligíveis, esvaíam-se submissas aos sons dos pássaros, dos passos, das pessoas sussurrando, o som se encurvava como uma onda que, depois de ter invadido, completa, o todo da areia, renuncia-se ao retorno para o mar que arrasta tudo para si, mansa e tênue, deixa, em seu abandono, um fraco semi-círculo, um fraco eco de sua curvatura fraca, ininteligível.

B.

Contemplação

28/09/2009

“se eu deixasse seguir as coisas o seu verdadeiro curso…”
A Dama das Camélias

E logo que terminou de escrever se levantou, caminhando lentamente, cheia de alguma coisa, o ar cheio de alguma coisa, até a janela, debruçando-se de modo que o corpo se deixasse apoiar no espaldar de madeira, dividindo o apoio entre os braços iluminados pela luz de fora e os pés descalços. Equilibrada assim, sem esforço, baixou os olhos para o jardim, uma multidão de plantas crescidas demais, a terra ainda molhada. O vento embaraçava um pouco seus fios de cabelo, sem que ela se importasse com isso, e escondia a expressão que seria já um enigma para olhos que a vissem caso estivesse de todo à mostra. E se deixou estar, como ausente do tempo – é evidente, no entanto, que se houvesse ali um observador atento, ele por certo estaria à espera, ansioso, sentindo o correr de cada lento minuto que demorava a se completar, estaria à espera do momento em que se notaria nela um pequeno escorregar de dedos, ou mesmo o largo e repentino impulso do corpo que depressa diluiria o ar denso, espesso que em aparência estava segurando todos os seus movimentos. Figurava-se uma estátua, a permanência. Como estava bonita! Há alguns dias em que, por alguma razão obscura, a beleza se intensifica e se torna para todos mais presente, mais sólida, delicada. Era uma pena que não houvesse naquele momento nenhum observador atento que percebesse como era bonita e misteriosa, apenas ela mesma, completamente sozinha – tantos são os momentos nos quais a beleza não tem a quem se entregar - completamente absorta em devaneios, impressões. Todo o seu corpo se inclinava num gesto interrogativo e até a sombra que se estendia um pouco do chão de tacos à parede denunciava, talvez, a inquietação – a profundidade - por dentro daquele corpo imóvel, como se no momento seguinte fosse se decidir de algo muito, muito importante, a coisa mais importante do mundo, e com pressa levaria à cabo a tarefa pendente. Ergueu-se, porém, lentamente, segura, com um certo abandono característico de seu modo de ser, como se àqueles gestos não sobrassem nenhuma reflexão premeditada, e caminhou novamente, lentamente, até a frente da escrivaninha. Encontrou com o olhar a lâmpada ainda clareando um círculo na folha de papel e contemplava sem pressa as palavras na folha. Riscos escuros, incertos de si mesmos, diversificavam o que seria apenas um branco. Dobrou-a, então, com o cuidado de uma preciosidade, e prometeu para si não enviá-la, nem mais tarde.

B.

então respirou para se acalmar, e no entanto isto não lhe trouxe efeito como diziam, apenas a mente, para um olhar de fora, se a cabeça fosse transparente, seria vista como um todo ininteligível de influxos, intercepções, muitas cores fortes, empalidecidas, branco com enormes manchas em negro ou cinza e finalmente algumas luzes que se deixariam ver só intermitentes, pois o resto as encobriria, movendo-se sem cessar e tornando as luzes apenas pontos intervalados entre luz e nada.

Ela tentou, pretendendo sair de si mesma, confrontar as ideias como se elas se entregassem assim dispostas à separação bem delimitada. A única vantagem da memória, pensou, é a de ela possuir esta incomparável capacidade de transpor as coisas como bem desejam suas vontades indeterminadas, volúveis como o são as imagens dos prédios distantes num dia de muito calor – também não se vê muito bem pois o vento insiste violentamente em espalhar muitos fios de cabelo os quais entram todos na frente dos olhos, torna-se impossível enxergar até o que está próximo, imagine então aquelas imagens distantes dos prédios num dia de muito calor! está ventando demais.

Como tudo oscilava e pendia! Era realmente como havia lido repetidamente, como Virginia Woolf insistia em dizer nos livros, num instante era como se tudo fosse permanecer estável, duradouro, tranquilo, e no instante seguinte já se estava sendo dominado sem perceber - tal é a rapidez de transições dessa natureza – pela força incomparável das coisas objetivas transmutadas em coisas subjetivas, tornando-se insuportáveis, tornando o mundo um lugar insuportável de se viver nem que por um segundo, a turbulência era como uma planície enrugada, é difícil de caminhar descalço neste solo tão irregular, mas os sapatos foram deixados porque na hora em que se saiu estava muito calor, esta planície enrugada é interminável, constante e sempre transitória, parece mesmo infinita mas em aparência já se andou e andou e não se saiu do lugar, a eterna lógica circular da consciência. A consciência não se identifica por completo com nenhuma imagem clara, não se pode calcá-la numa referência pré-estabelecida quando se vai escrever sobre ela.

O importante a se reconhecer é que a impressão enganosa fazia com que ela tivesse a sensação de estar pulando, com o passar do tempo, de perspectiva em perspectiva.

Os fragmentos utópicos trazidos pela memória se transformavam de repente numa realidade devastadora, imponente, havia nesta realidade a força terrível do que é mais forte e imponente, a maior força que poderia se acumular num só fenômeno e isto era por que – e então se vê a vantagem que há nos detalhes – o conjunto formava um mosaico pouco identificável, pois sempre fora visto como se estivesse sendo observado sob um microscópio, e o conjunto nunca passara de um acúmulo um pouco apagado, empalidecido, de pequenos movimentos – um olhar, um sorriso sem motivo que não se estava esperando - os quais escorregariam despercebidos senão dentro do universo só delas, ela e a outra, que era quase como uma mesma. Embora notados, estavam sob o microscópio e então tudo adquire a grandeza inapropriada se comparado com o tamanho real e também a força irrepreensível do que não se entende. Além disso, as coisas escondidas possuem imanentes uma ambiguidade irrespirável: ao mesmo tempo em que se ocultam, quase imperceptíveis no atropelar dos acontecimentos, quase imperceptíveis ao refresco ilusório das atividades cotidianas pelas quais se fica tão alegre (hoje caminhei um pouco ao sol, depois estudei ou tive uma longa conversa interessante e ainda hoje mesmo limpei a casa enquanto ouvia canções de que gosto muito! foi mesmo um dia bom), ao mesmo tempo em que estão assim ocultas, as coisas, elas reforçam, através de sua indefinição, uma presença constante e pesada que retira de qualquer presente a existência independente do que o aprisionaria numa continuidade melancólica e obsessiva. Ouvi dizer que a melancolia é o excesso de alguma substância que o próprio corpo faz questão de produzir em excesso para que se fique melancólico, isto é uma explicação que também traz uma reflexão ambígua – é bom porque não depende de nós e é ruim porque não depende de nós. O pior é que tudo isto pode ser mentira e então continua se suspeitando de que se depende somente de nós.

Foi assim que ela estava pensando: “Por mais que seja deste modo e a realidade ofereça outras explicações igualmente aceitáveis e que justificam tudo isso com uma simplicidade fechada em si mesma, existe dentro de mim uma pontinha que me perturba durante todo o tempo, murmurando que o distanciamento é o resultado de alguma coisa que sou capaz de despertar, uma curiosidade, que se desenvolveria naturalmente pela proximidade, que se desenvolveria naturalmente, pois talvez exista além de mim - como em mim naturalmente existe - a atração. E isto seria mesmo um problema, em razão de todos os motivos tão reais, com um peso intolerável, que dão ao presente um ar pesado e irrespirável pela existência insistente do passado. E, por experiente e racional, sabe que limitando o contato de qualquer natureza, as pequenas conversas que existiam em abundância, acentuando a hesitação, a demora – demora interior, tão difícil de se esperar! – limitando tudo isso reverte-se em facilidade a intrincada tarefa de se controlar o que seria incontrolável caso tudo decorresse sem freios. Digo, não é só porque é firme e objetiva que há a demora, que há esse distanciamento para mim um pouco doloroso… É talvez justamente porque há (eu sempre soube que houve, sempre percebi isso que pouca gente se dá o tempo de perceber) uma outra-mesma dela que é, além de todo o resto, doce e livre e que se permitiria atos e que se entregaria às vontades as quais talvez existam, sem dúvida existem. Será então que ela está se auto-preservando? Será que sim ou será que não…?” – é de fato um questionamento irresolúvel, eterna divisão lírica entre ser, não ser, o de dentro e o que não está dentro – e, se por algum motivo este último se incorporar ao que está dentro, será vítima daquela transmutação inerente à insistência da subjetividade, à ação de solapar as coisas, própria das atitudes da subjetividade, tão inimiga, onipresente, companheira.

“Isto é então mais sério do que os devaneios que trazem simplesmente a fantasia do futuro misturada com um pouco de lembrança, pois neste tipo de reflexão há uma seriedade imanente às coisas reais – o problema afinal só aparece nas conjecturas, quando se está sozinho - a tendência é sempre a de continuar caminhando por cima da tensão, amedrontado pela ideia de cair e, todavia, com vontade de permanecer caminhando, tranquilo sem naturalidade, mas pela obrigação. Não é uma fantasia por divertimento, por brincadeira como as que impelem a criação, mas é, como disse a minha amiga – sim, eu me lembro de suas palavras! vou então retomar mentalmente as suas palavras: ”eu acredito, realmente, que você tenha consciência agora de que não está fantasiando, mas que está, sim, sentindo coisas que parecem reais e que a todo momento, a todo ato, a cada prova, se comprovam reais, sendo talvez – e muito provavelmente – muito mais perturbadoras do que os simples devaneios completamente fictícios e fugidios da realidade que se tem por brincadeira. Quer dizer… suspeitar de algo que realmente se mostra cada vez mais real é muito pior do que saber que se está viajando. E eu sinto, sinceramente, que você também é sincera ao dizer que isto tudo parece muito sério. Muito real.” Sim, muito boas palavras, e sou mesmo de todo sincera com essas coisas quando me permitem que o seja. Contudo, às vezes suspeito, e chego a beirar a certeza de que estou me enganando, de que minha sinceridade é um artifício malicioso dos olhos que permanecem desejando, a sinceridade é uma sinceridade profunda do desejo mas não do que se vê fora dele. Ao mesmo tempo, tudo continua sendo sentido, pressentido, tudo é mesmo real, deu margem às percepções, nenhuma percepção é puro ato da subjetividade entristecida. É mesmo uma complexidade sem fim, sem começo, já se está confuso sobre qual caminho seguir, qual caminho se seguiu no labirinto – veja só! ele já é algo concreto. E também, há muito medo, medo de verdade e de mentira, e mais intenso é o medo de se estar errado ou de se errar. Depois, há o medo dos olhares de fora. “Ela também teme os olhares de fora, eu tenho certeza.” – pensei. É um temor compreensível e cansativo como todas as coisas compreensíveis.”

Lembrou-se, em seguida, de um outro comentário que lhe haviam feito sobre a outra: ”acho que ela deixa os sentimentos variarem e, aí sim, se comporta de acordo com eles.” Entretanto já lhe era impossível de distinguir se este comentário havia sido feito em relação à outra mesmo ou se era para ela – ou ainda, se fora ela mesma quem havia pensado isto sobre si mesma, ou sobre a outra.

Neste momento, se a cabeça fosse transparente, seriam vistas algumas nuvens acinzentadas percorrendo lentamente – tal é a intensidade da lentidão – de um lado a outro o espaço que contornava sua cabeça, sem cessar mas também sem correr - para um observador de fora, se a cabeça fosse transparente, as cores teriam sumido e de igual modo as luzes, mas um observador de fora estaria por completo enganado.

Foi então que ela parou de pensar e se assustou com o que estava pensando.

B.

Pois antes ou depois de uma conversa o que se tem em mente é: dizer claramente - com todas as letras bem pronunciadas, espaçadas, todos os advérbios no lugar, os pronomes - o que se pensa, de modo que se torne claro que isto é sem dúvida parte de uma reflexão anteriormente iniciada, e o estágio avançado do raciocínio que se alcançou consigo mesmo é o que se deve, sem grande dificuldade, expressar no momento em que este ou aquele assunto vem à tona, porém ele, rápido, veio à tona, não se estava esperando por isso agora. Pois as conversas são muito estranhas e traiçoeiras: primeiro elas pontilham - pode ser que sejam levadas a cabo, pode ser que não - como quem não quer nada e só está pontilhando, depois aparentam mais solidez – talvez de fato darão início - e denunciam por fim que vão mesmo começar. E logo se pensa: ah! sobre isto eu posso conversar! discorrerei e meu interlocutor ficará impressionado, sobre isto eu já refleti muito! – mas então, de súbito, torna-se vítima de uma pergunta inesperada, já se pensou, é claro, muito sobre ela, e no entanto naquele momento é simplesmente impossível se expressar de qualquer maneira adequada. É a hora em que ficamos silenciados, ou como os que ficam gaguejando sem nunca chegar ao que queriam dizer, vêm os risos sem fim, sem contexto, somos estúpidos em aparência, viramos os mentirosos, os cansativos - eles falam realmente em excesso e fica-se muito cansado de ouvi-los tanto - são todos transitórios, pode-se pular de um ao outro – ou ater-se sempre ao mesmo, por segurança, insegurança - como se a escolha fosse largamente infinita, mas nunca boa, pois não nos esqueçamos que ela deriva de uma insuficiência no que era mais importante: expressar a matéria que está pronta em nossa mente, afinal, já se refletiu, já se evoluiu muito neste, naquele assunto. E na hora em que a pergunta nos é lançada a resposta faz-se tão rasa que nem nós mesmos acreditamos que seria possível se exteriorizar tão pouco, apegar-se assim ao lugar-comum desprezado em todos os outros momentos, e também àquela personalidade repetida que dizem possuirmos e cuja limitação aparente sabemos ser na realidade apenas uma atitude forçada pela circunstância, só aparente e é claro que todos entenderão que aquilo é somente uma casca, um leve indício errôneo do que há por dentro - a personalidade em seu todo perfeito não se finaliza assim, apenas, pois só se precisou de um fragmento dela por um pequeno instante, um fragmento - nós próprios não acreditamos que seria possível ser tão diminuído por fora, quando por dentro se é sem dúvida ilimitado, já se avançou muito, os pensamentos estão bem evoluídos (como se fica orgulhoso de si mesmo!). Contudo, enquanto a conversa transcorre é como se uma parte de nós ficasse de fora, escutando e avaliando, rigorosa, impassível, o que dizemos e a outra parte – a que fala - apresenta-se tão inexperiente, oprimida, exausta sem nunca ter realmente trabalhado, e funciona de fato mal – estamos à beira de uma decepção definitiva com nós mesmos! não se pode sair ileso desta! e ao término de tais reflexões rigorosas, impassíveis, dá-se conta de que a conversa está concluída e o que se pensa - e se continuará pensando depois de muito tempo - é: eu deveria ter dito isto e aquilo, aparentei ser muito empobrecido com as minhas ideias mas da próxima vez me expressarei perfeitamente.

B.

encontro

09/09/2009

porque às vezes sentia e chegava a beirar a certeza de que era apenas isso – e não pouco, era tudo - o que queria com B., sua proximidade física que escorregava naturalmente para a proximidade interna: um contentamento muito bom e sem limites, um contentamento realmente bom. Queria apenas a conversa à vontade, imprevisível, entremeada de sorrisos por nada – eles nasciam, tão inesperados! e quando se dava conta deles, já estavam acontecendo -, entremeada também por risadas que surgiam de piadas um pouco bobas e mal-feitas, mas sem dúvida graciosas, e que de súbito voltava aos temas sérios - os quais contudo, ali, perdiam o que pudesse haver de pesado sobre eles, tudo permanecia – como numa continuidade em que se perde de vista o final - à vontade (“E alguns relaxaram os dedos; outros descruzaram as pernas.). Também porque eram comentários importantes – quando sentia-se que eles se iniciariam, esperava-se (e então se sentava mais correta na cadeira) esperava-se certamente que algo essencial estaria por vir, nunca alguma coisa haveria de ser de importância menor para aquele mundo esférico da pequena sala - comentários que, de tão densos, enriquecidos, precisavam ser entendidos por completo, e no entanto nunca o eram de fato, já que os momentos de atenção pontuavam intervalos, numa ordem própria, entre as imagens bonitas e tão detalhadas - desejava-se reter todas as pequenas belezas, e eram tantas! haveria o desejo de retomar todas elas depois - que se sobrepunham às palavras, soltando-as num segundo plano, como se houvesse um segundo plano para elas serem lançadas deste modo. Os comentários precisavam ser entendidos por completo mas o que restava por fim era a atmosfera, e nada do que se narrasse sobre isso esgotaria o que há por dentro, ainda que se conte repetidamente, ainda que se conte várias vezes para si mesmo, não haveria enredo ajustável e nem viria o esgotamento pois o que ecoava era o sentimento que se pressentia pelos olhos, ele só existia ali e apenas ali podia se realizar de todo, mútuo, como se estivesse nascendo só naquele momento - este sentimento sem nome as encerrava em sorrisos silenciosos, talvez não concomitantes por fora. Algumas vezes o silêncio ficava em primeiro plano, como se houvesse um segundo plano para as palavras ficarem esperando, e a conversa era então sem palavras, era uma conversa que se deixava ser, simplesmente, igual - e muito apartada! – à conversa com palavras. O todo da realidade tão enriquecida pelos olhos, pelos corpos, era então perfeito, como um conto que é tão perfeito, não se sabe ao certo como ele foi construído, e nem de onde vem aquela riqueza toda.

B.

a frase mais bonita e incômoda.

Rosa

02/09/2009

“Se nunca atentou nisso, é porque vivemos, de modo incorrigível, distraídos das coisas mais importantes.”

ater-se ao estudo de certos objetos – reais, ficcionais - com a ambição de entrar neles é como se ter o desejo de agarrar firmemente entre os dedos – por um instante se está certo do sucesso de tal empreendimento, não resta dúvida de que será uma tentativa bem-sucedida - um pedaço de chão liso e ensaboado.

B.

Quando finalmente se sentou e começou a escutar, percebeu que os pensamentos invadiam seus ouvidos, como se disputassem, furiosos, contra a voz que vinha de sua frente. Eles logo ganharam volume e um impulso inevitável lançou-a por completo aos devaneios - como já o havia se deixado abandonar incontáveis vezes. Em qualquer momento no qual lhe era possível visualizar seus anseios ela os aglomerava todos – inicialmente em dispersão - tentando agarrá-los com força, obstinada, já que era quase certo que o objeto de sua fantasia não estava presente e imaginar requer a trabalhosa composição de um mosaico. “Mas, veja!, ela está aqui, sim, bem na minha frente! E eu quero beijá-la e possuí-la.” – pensa e, sim, aqui está ela, bem em sua frente - discorrendo sem frestas – torna-se uma tarefa exaustiva a de compreender as palavras que lhe estão sendo ditas, e no entanto é sem dúvida de seu conhecimento que deveria estar atenta, acompanhando a linha contínua do tempo - no instante passado, por exemplo, deveria ter prestado atenção no que foi dito, mas já passou - sequer houve tempo para se notar! Deveria estar atenta não apenas na superfície das palavras como também em qualquer mensagem que elas potencialmente estivessem escondendo - mas isto é também fantasia, são apenas seus olhos enriquecendo o presente desimportante, eles o moldam segundo suas pretensões, as quais em realidade são muito apartadas da realidade que não enxergam. E por que, de um instante a outro, revela-se tão difícil tornar-se próximo da realidade, tal qual ela é – em algum lugar, em algum tempo? O desejo é sem dúvida mais resistente do que todo o resto, e mesmo quando se aproxima do medo – pois há muito a se perder tendo em vista tais sentimentos - aproxima-se até se estar beirando o risco irreversível da perda, há ainda, escondida e portanto mais perigosa, uma insistência por parte do desejo que lhe torna tão cansativa para si mesma e para os outros, e embora alguns ouvintes, leitores se importem com sinceridade, não se deixam enganar pelos seus devaneios, ainda que o que ela escreva seja muito convincente e na aparência real, mas a força é das palavras e as palavras apenas flutuam muito distanciadas da realidade - as palavras tornam a realidade mesquinha e pobre – e então não se deseja mais ser parte desta realidade pois já se está em absoluto convencido pelas palavras. Mas é só por um momento, porque logo em seguida é possível perceber a profundidade oculta nos olhos, tão real - pois quando escrevia era outra coisa, de forma alguma o que escrevia tinha a ver com os seus olhos - embora fosse talvez como um reflexo do que eles escondiam, silenciosos, do que havia por trás dos olhos ainda que eles fossem muito sinceros. A verdade é que eles têm muita vergonha, mas são pretensiosos e o fato de cobiçarem tanto se sobrepõe maliciosamente a tudo - como qualquer desejo que é, no início, por certo reversível, foi sem dúvida um caminho que se escolheu só por brincadeira. E então, quando ela (sentada em sua frente, tão bonita!) termina com tudo o que teve a dizer, já é hora de se levantar da cadeira, deveria se retirar da pequena sala.

B.

para Carolina

26/08/2009

gosto de acordar – acordar bem cedo! antes – e ficar olhando você ainda dormindo, distante – e por estar tão quieta e longe, deixa eu ficar assim perto como só um olhar não-vigiado se permite o abandono - e também tem que olhar bastante e não ligar para quanto tempo se está olhando, se já se olhou demais - o braço no qual se está apoiado pode começar a formigar - eu não ligo porque já acordei bem cedo e ainda há tempo, não há tempo para ficar se preocupando. você está respirando bastante, ouve-se então um barulho baixinho, escuto e posso senti-lo, invisível, por ter chegado ainda mais perto, querendo senti-lo, faz cócegas, pois você expira sem saber que eu fico prestando atenção, e depois vejo – nunca me cansei! é como se não os tivesse percebido ainda - como os seus cílios são longos e o seu nariz é tão delicado no rosto, o todo se enriquece já que o nariz é tão bonito e condiz com o resto dos traços, e você está deitada de lado, a sua pele tem sardas. o pijama tem bolinhas na malha porque é velho e o seu cabelo está bagunçado mas é como se alguém tivesse feito esta bagunça de propósito para parecer que está bagunçado por se ter dormido, você não iria gostar caso o visse no espelho, mas eu gosto e nunca se vai entender direito o porquê.

B.
“DORN – Pois eu acredito em Konstantin Gavrílitch. Há alguma coisa nele! Há alguma coisa! Ele sabe pensar por meio de imagens, seus contos são expressivos, vivazes, e provocam em mim sentimentos fortes. Só lamento que ele não tenha propósitos mais definidos. Cria impressões e mais nada, e o problema é que não se pode ir muito longe apenas com impressões. Irina Nikoláievna, a senhora está contente por seu filho ser escritor?
 
ARKÁDINA – Imaginem só: eu ainda não li. Nunca tenho tempo.”

Trecho de A Gaivota

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Lentidão nos movimentos de quem filma e quando a câmera parece ter encontrado o centro, conserva-se numa só personagem durante muito, muito tempo, esquecendo-se do tempo, como se nos estivesse pedindo uma atenção minuciosa. Pois deve-se prestar a máxima atenção no que é pequeno, a máxima atenção, já que sem os detalhes o filme não seria nada, e pior!, sem detalhes não haveria Tchekhov para se adaptar. Deter-se ao mínimo, em uma personagem por vez, culmina em individualidades isoladas: o que era lírico transmutou-se em drama – mas se o drama resolve por ser algo outro, a essência dramática se ausenta de todo – é uma transposição definitiva! - e não há mais possibilidade de que ela reapareça em lugar algum, a intersubjetividade é requisito para o drama. Não há solução para o isolamento. O diálogo como uma poça de água, um lago parado e, uma vez que ele não corre, não empurra o que está na frente e então o tempo se acumula como num poço, parado, antigo - e por isso não há ação para se desenrolar. Tudo permanece coagulado dentro das personagens, impotente para sair, um acúmulo latente, demasiado, antigo. O peso está então no implícito - como quando se sobrepassam os diálogos inexpressivos, vazios daquele acordo mútuo inerente à conversa - sobrepassagem por superfícies - só se vê, devido ao enquadramento, uma personagem; ou seja, o interlocutor (por mais irônica que esta denominação se torne aqui) está também implícito. O diálogo converte-se quase totalmente em um monólogo, e a atmosfera opressora deriva justamente do fato de ser ainda um diálogo. E para todo esse desespero silencioso, há um cenário natural - parece-me a realização do que chamam paraíso - como um contraste necessário e que, ao invés de atenuar o que há de ruim por dentro, intensifica-o, um contraste necessário. De modo análogo, a presença da criança desvela nuances com as outras personagens, sobretudo com sua mãe e com seu irmão, pois eles estão envelhecidos. Envelheceu a pessoa e o que está dentro dela, tudo o que um dia se sentiu já não está mais presente e escapa à presentificação dramática – o sofrimento, por isso, também não pode simplesmente se explicitar, compartilhar-se.

Duvidei que a atmosfera da peça A Gaivota pudesse ser transposta a uma adaptação livre, pensei ser impossível que uma mesma sensação se sustentasse no que não estivesse dentro das escolhas do próprio Tchekhov. E no entanto estive enganada, pois em Entardecer, Angela Schanelec (que dirige e atua em seu filme) conseguiu traduzir, através de uma recriação - dever de toda boa tradução - para o cinema, para outra língua e para o nosso presente antigo século o teatro-sempre de Tchekhov (ainda que a forma deste nos leve irremediavelmente a pontes históricas), utilizando com perfeição e sem abuso os instrumentos da arte que está a sua disposição, arte esta que ultrapassa o teatro pelas inúmeras (e portanto perigosas em sua facilidade) possibilidades sugestivas. A consciência dos recursos cinematográficos nesta, eu diria, brilhante alemã é tão plenamente adequada para o projeto em questão que ela abandona também quase em absoluto o recurso musical, decisão que, além de aproximar mais o filme da arte de um palco, obriga-nos à concentração máxima nas personagens, deixando então o espaço necessário para que se revele – ainda que a visão seja turva e difícil – tudo o que nelas está escondido. Só assim se torna palpável a atmosfera de opressão e sufocamento, ilhas com paredes. Não há solução para a tristeza e não se sabe bem onde ela está, mas ela está lá, pronta a nos atingir, tão onipresente (como já disse um dia sobre o Tchekhov). Percebê-la é uma tarefa que não permite nenhuma distração, para que se veja o que por costume já supomos que vemos (mas que em verdade prevemos, como diz Valéry) e também o que é invisível a nossos olhos arrogantes, impacientes. E então, realiza-se uma das consequências mais graciosas - nessa hora se respira com alívio! - de uma boa obra de arte: ilumina o resto. Até o simples necessita de atenção para ser de todo revelado à vista; é justamente este simples que faz ver e ultrapassa a mera forma para uma irradiação sublime: transcende o limite que aparta a arte da vivência – tão longe da arte! – cotidiana. Eu diria: uma sorte em meio à tristeza – que além de incomunicabilidade entre as personagens é também nossa mudez cotidiana, um isolamento sufocante, trancado - e que por isso é ainda mais sorte.

“AGNES - Mas o cachorro estava ótimo. Ela atuou muito bem, como se não estivesse no palco, mas fora, no campo, completamente só com o cachorro. Ela não tinha nada, nenhum galho ou bola. Parecia estar arremessando alguma coisa que o cachorro trazia de volta. Mas ele também não tinha nada. Ela o acariciava e segurava algo diante dele. Você sabe o que quero dizer? Não sei como ela fazia, é um mistério.
 
KONSTANTIN – Não estou mais interessado na minha mãe.
 
AGNES – Foi maravilhoso.
 
KONSTANTIN – Você está me ouvindo?
 
AGNES – Você envelheceu.
 
KONSTANTIN – Envelheci?
 
AGNES – Há um monte de coisas interessantes. É sempre assim, nunca mudará. Quando estou sozinha, vejo tantas coisas… Todas as coisas girando ao meu redor e estou feliz. E penso que preciso encontrar algo decisivo que me leve para adiante. E se falo com alguém, isto não é algo decisivo. Mas sei que está escondido em algum lugar.”

Trecho de Entardecer

O dia estava bem claro e então ele repetiu:

- Como o dia está claro!

- Eu também gosto do céu ensolarado e sem nuvens. - a intenção era terminar a conversa nos mantendo como antes - embora o antes de modo algum fosse constante - para evitar o surgimento daquele resto que nos tornaria estranhos um ao outro - não quis que ele notasse em minha frase qualquer deslize de insegurança o qual denunciasse meu pensamento se apartando das palavras e esvaziando-as, pois revelaria-se no silêncio a minha lembrança concomitante àquelas palavras transmutadas de sentido. E então, como qualquer coisa inevitável, ele disse:

- Você se lembrou, não é.

- Sim. – respondi, sem palavras, porque logo depois ele insistiu - foi mesmo uma insistência forçosa:

- É, é inevitável, mas nem por isso o dia deixa de estar claro e nem por isso nós abandonaremos o desejo envelhecido de ir caminhar à beira do mar, hoje - como já o fizemos tantas vezes, como você já o fez inúmeras vezes - é como um acúmulo um pouco apagado - sem saber que no futuro estaria para vivenciar uma situação parecida, novamente comigo, e que nós nos lembraríamos do passado querendo afastá-lo, tentando esquecê-lo. Mas o vínculo já se formou e aqui está ele, presente como qualquer perturbação, compondo nosso belo momento e roubando um tanto de sua beleza, talvez toda a sua beleza, comprimindo nosso instante num cenário empobrecido, como resulta a cenografia de um palco exageradamente enfeitado, abafado, que se arruina com facilidade pelas monstruosidades escondidas nas pessoas que o habitam - elas habitam o palco como se tivessem sempre vivido ali e se tornam parte dele - e os temores por certo não tardam em se realizar, ainda que numa visão turva, como são as aparições que se interpõem ao receio silencioso, nunca de todo explícitas pois a sua visão completa seria insuportável e por isso elas ficam apenas intermitentes. E neste momento, como qualquer coisa inevitável, aqui está ela – a lembrança, presente. Mas nem por isso o dia deixa de estar tão claro – veja só como o céu está sem nuvens! - e nós iremos caminhar lentamente à beira do mar.

B.

minha Björk

16/07/2009

É uma coisa tão pessoal que eu não posso escrever sobre ela. Não se pode despejar um acúmulo, espalhando as sensações e pensamentos, jogando fora o que é de dentro. A Björk compõe minha sucessão de estados de alma, e por isso eu não a compartilho com ninguém, seria por certo uma frustração, estados de espírito não encontram simetria. Há um desequilíbrio inerente, sempre separados. O que dizem sobre a união, a universalidade pela música, não acontece neste caso. Por isso também que raramente – muito raramente! - gosto do que leio sobre a Björk, ninguém sabe descrevê-la, tem sempre uma pretensão exagerada por trás, visível. Mas a Björk é tão poética e sublime justamente porque nunca parte de pretensão alguma. Ela é uma das poucas que tem plena consciência de que as melhores formas de arte atingem o sublime partindo do simples, do que se tem controle, e não querendo agarrar em desespero o que está além do próprio alcance. Artistas como esses são uma sorte muito grande, sorte nossa ter Manuel Bandeira, Tchekhov, Virginia Woolf… Enfim, importa é que não quero que ninguém aproveite a Björk como eu, do meu jeito ninguém pode aproveitá-la. Isto faz parte do meu estado de espírito, um pequeno momento – embora grandioso e pesado por dentro. E ainda que agora eu tenha absoluta certeza de que ele não vai terminar nunca mais, daqui a pouco já vai embora.

O cd que estou ouvindo repetidas vezes é o Vespertine, e não consigo, já há vários dias, ouvir nada além disso. Todo o resto é certamente incompleto e supérfluo.

Cada música é sozinha, são bloquinhos independentes, como contos revolvidos por uma atmosfera própria. Como pequenas bolas de neve, cuidadosamente moldadas para que ficassem com o mesmo tamanho (mas não resultam no mesmo tamanho pois foram feitas à mão e aparecem as marcas dos dedos nelas). Mas aí quando se juntam todas em um canto, vê-se que é tudo neve, é um todo que temos certeza que foi sempre assim, nunca separado. Mas aí se olha de perto de novo e se vê algumas marcas de dedos, são mesmo marcas de mãos que moldaram aquelas bolinhas de neve.

Neve como as cores da capa como as cores das músicas. Um contraste de branco e cinza é quase um contraste e às vezes não é. E também, não sei o nome ao certo das cores - os nomes escorregam, são como um lençol menor do que a cama, ou grande demais e sobra para os lados -, elas não têm nome em minha língua, mas o nome é apenas uma parte  da apreensão das coisas, elas, ainda que sem nome, não se deixam esquecer. Torna-se por certo uma tarefa constante para os olhos, as percepções ficam visíveis em todo o lugar, em todo o simples.

Por exemplo, olha-se para o rosto da Björk e ela parece uma criança, também pelo tamanho e pelo nariz arrebitado. Mas aí ela está com os olhos pintados e de repente se enxerga ali uma mulher maravilhosa, atraente ao extremo. Contudo, logo a sensação se dissipa, voltam o rosto e a voz infantis. A música então tem sons alegres, desconexos, e a voz ultrapassa os limites impostos pelo compasso em 4 tempos para quanto tempo ela quiser, cantando todas as notas que precisam ser cantadas, além daquelas que ela decide na hora adicionar, e então todo o resto é agora reflexo da voz, sem ter ultrapassado realmente o compasso. Ela canta e sorri em alguns momentos e junto com o arranjo dá a impressão que aquilo é felicidade extrema, mas então se presta atenção na letra e percebe-se que há ali uma tristeza profunda e constante, não acaba mais, não tem solução para a tristeza. Como tudo o que escreve Tchekhov, ou Bandeira. Aquela melancolia presente, que nos toca e nos deixa tristes, porém não se sabe bem onde ela está. E o que era tão simples é agora complexo e indefinido; ao mesmo tempo muito profundo. Profundidade que não se sabe de onde veio, só que agora já é tarde para se tentar descobrir, ela já está lá. E então a voz fica também melancólica e meio rouca, revela-se de súbito aquele encanto inerente às vozes que são roucas. Já se está a essa altura inteiramente absorto, envolvido, ao passo que tão distante e racional, pensando sobre a própria melancolia escondida. Plenamente lúcido e consciente de si. E de igual modo submetido à música, à voz, aos sons distintos e simples, bonitos, e quando juntos - porque aí entra a orquestra com todos os instrumentos - aparenta com certeza uma coisa pronta que nunca teve de ser construída pois aquilo tudo não precisa se justificar, tal é a naturalidade das confluências, como uma árvore que simplesmente nasceu e é tão bonita, não nos perguntamos como ela se formou já que para nós ela está formada, não tem cabimento ficar se perguntando uma coisa dessas. É assim que a música aparece ante os nossos olhos. Os ouvidos não sabem mais distinguir, estão de todo entregues, portanto são os olhos que têm de trabalhar, mas é uma união tão fluida que os olhos também já fazem parte do conjunto – e nem se teve tempo para notar! É esta a minha experiência, o total envolvimento junto com o cérebro trabalhando, sério, racional, pensando além disso sobre outras coisas, sem saber que é tudo sugerido pela música, sem poder distinguir ao certo, mas com plena consciência de tudo o que está dentro de mim, daquele mesmo modo que a música foi feita: sem a pretensão de tentar agarrar o que está fora, pois não se pode, está irremediavelmente fora do alcance.

Então eu vou colocar esse vídeo aqui, mas não deveria certamente tê-lo colocado, ele não serve para mais ninguém e no entanto ele precisa estar aqui. Sobretudo pelos últimos minutos da música, ouve-se a música só à espera deles e eles passam tão rápido que já se quer ouvi-la novamente. Refletem todas as minhas matizes internas, todas partindo do cinza (ou branco), sensações que talvez daqui a um mês não estarão mais nesse estado, com certeza não estarão, e o sentido do texto vai se afrouxar. Mas o da música não - já terá outro sentido, outro efeito (sem abandonar de vez o anterior) e nunca se torna uma relação de todo madura, pois sinto-me uma criança, achei na música conforto como uma criança o tem na própria cama, sabendo que a mãe dorme ou lê no quarto ao lado, está quieto, mas é certo que ela continua ali e se está aquecido pelo cobertor, pela janela fechada. E no entanto será preciso acordar no dia seguinte e ir para escola, ou trabalhar, ou ir embora. Mas por enquanto se tem o cobertor, enquanto isso se tem a música, um modo de se estar feliz e satisfeito sabendo-se entretanto que o momento deverá ser abandonado em breve, é ter uma felicidadezinha que dentro de nós é enorme e sem limites, ao passo que se tem total consciência de que por trás ou depois uma tristeza serena está esperando, repetida, já um pouco amaciada. Mas a vantagem é que, por exemplo, a aparente limitação em se ouvir uma só canção, um só disco, converte-se em liberdade, liberdade do que é supérfluo e pretensioso, de se ter consciência e assumir as coisas e ao mesmo tempo de se livrar delas, liberdade por dentro, enorme e sem limites, pela arte. Como quando era criança e enquanto brincava concentrada tinha certeza de que naquele exato momento a vida era ilimitada, daria os saltos que quiser, e no entanto sabia que muito em breve a felicidade iria acabar, tinha certeza de que ela iria acabar.

Quando se está sufocado, sente-se sufocado até o fim, tudo ao redor parece impregnado por essa sensação de pequenez. Qualquer sala, livro, rua, parque fica estreito demais, parece que se quer voar só por um instante, mesmo que voando não adiante nada a não ser ver as coisas por cima e talvez até assim a vista seja insuficiente, pois só se estará vendo as coisas por cima e nada mais. Quando se está andando numa calçada à noite, quer-se entrar em uma casa, pois a rua diminui de fora para dentro, mas aí, entrando na casa, a casa sufoca pois está escura e fria. Deseja-se então sair, mas aí, saindo, está lá a rua novamente, a mesma coisa, e o sentimento é pior porque aí já se está nela por uma segunda vez. Sobe-se por isso a escada de incêndio de um prédio, sobe-se até a cobertura, e lá fica-se sentado na borda, como um vôo parado. E continua, nada muda, parece que as casas, mesmo longe, estão todas aglomeradas em um espaço terrivelmente pequeno, estão próximas demais, impedindo a respiração necessária. Balança-se as pernas e sente-se o corpo tremer, mas não se sabe mais se é o frio, pois sente-se a testa suada, ou se é mesmo o sufoco de dentro refletindo-se fisicamente. Descobre-se que o desejo de sair do sufoco é ir para o âmago das coisas ou da pessoa pela qual se está sufocado – mas esta pessoa está distante, distante, e não há como encontrá-la naquela cidade, ainda que a vista de cima do prédio seja ampla - em aparência o mundo todo está ali - mas justamente a pessoa não está. É quando se deseja viajar, mas não se sabe para onde, e então se assume que o desejo é de entrar no corpo desta pessoa e rasgar o sufoco, rasgar furiosamente tudo o que tem dentro dela, mas ela não está ali – e mesmo se estivesse, o que adiantaria? são muitas casas, muitas pessoas, a probabilidade de encontro é mínima, pode-se andar e andar, e mesmo que se caminhe por um mesmo lugar que ela andou, a hora pode ser diferente – ou mesmo os segundos – e isto já é suficiente para se estar separado da pessoa por quem se procura. E aí, pela momentânea ausência – mesmo que ela esteja prestes a aparecer na esquina - imagina-se que ela não esteve ali e nem estará, e mesmo que se espere é só por uma minúscula probabilidade, quase não é possível de se ter esperança. A vontade é de se jogar do prédio, mas talvez nem assim, sentindo o chão pesado no peito, o sufoco vá embora, ele pode até piorar – não se sabe. Então, não se joga daquela altura, mas se desce rapidamente pelas escadas, segue-se pela rua vazia, entrando enfim na casa úmida e fria. Tira-se os sapatos e deita-se no colchão também pequeno demais – os pés ficam para fora – e tenta-se adormecer, apagando a vela – mas ela já está apagada! Tenta-se adormecer, mas dormir é impossível, então permanece-se acordado, esperando. 

B.

bilhete

21/06/2009

B. ,

Percebo pelos acontecimentos dos últimos dias o quanto é bom ser triste. Só triste me permito olhar para os detalhes, pensar e ter paciência. Quanta paciência se precisa para viver! O preço que se paga por ser triste é um peso sem tamanho e constante e, o pior - é suportável. Vez ou outra o desespero. Mas a tristeza é estranha, às vezes acho que é boa, e mesmo que não fosse - já que também não é - os dias se passam e parecem não perceber se estou triste ou não. E, enfim, eu só sei ser mesmo, de verdade, quando estou triste, senão pareço outra. Só triste me deixo algumas frestas na correria do tempo para respirar, senão eu sufoco. E também tenho medo, senão eu sufoco e fico com medo. Quando estou feliz tenho medo de a tristeza voltar.

 

Bruna

“Mas por se mostrarem amplamente receptivas, em caráter prévio e em coisas menos essenciais – até agora não se tratara de nada mais que isso -, as autoridades o privavam da possibilidade, também da satisfação correspondente e da segurança bem fundada, que dela derivava, para outras lutas maiores. Em vez disso deixavam K. deslizar por toda parte que quisesse, se bem que apenas no interior da aldeia, minando-o e enfraquecendo-o com isso: aqui elas eliminavam qualquer luta que houvesse e desse modo o deslocavam para a vida extra-administrativa, totalmente sem transparência, turva, estranha.

(…)

K. leu em voz alta a carta de Klamm, acrescentando algumas observações. Mais uma vez teve o sentimento da extraordinária facilidade no trato com as autoridades. Elas carregavam literalmente todo o peso, era possível pôr-lhes tudo nos ombros, conservando-se incólume e livre.”

*trecho do romance O Castelo, de Franz Kafka

Silêncio

17/06/2009

“Giles dobrou o jornal e apagou a luz. Sozinhos pela primeira vez durante o dia, ele e Isa estavam calados. Sozinhos, a hostilidade se revelava; também o amor.”

Renova-se a cada vez que o leio:

Raridade

Para Bruna

Aquilo que não se explica porque não há necessidade.
Em um mundo no qual as palavras por vezes não ajudam
prefiro tentar compreender com olhares.
No meio de quatrocentos nos achamos.

Quando me deparo com meu reflexo já não sei quem vejo.
Sinto que você mora no cenário dentro
do meu espelho, apesar de a distância física me desmentir.
Sentir é melhor do que ver;
maravilhar-se com prosa e poesia confusas
vale mais que demonstrar e provar pela matemática.

Os nossos pensares são um – entendemo-nos
e não conseguimos no entanto traduzir aos demais
o que acontece. Poucos falam nossa língua.
E um dia eu sei – você, o violão; eu, o piano.

Funcionamos porque há o desinteresse
a troca de favores não faz parte dessa
relação que quase não é humana.
O prazer que temos ao falar é o mesmo
que experimentamos ao ouvir.

Procuro algo para crer, mas é difícil.
Porém, por mais que me tente, a ideia
do acaso não pode ser o bastante nesse caso.
É a metafísica, o trascendental. Destino?
Não me agrada o termo, e sim o que ele denota.

Você é raridade.

 

Presente do meu querido Gustavo (www.fazerescrito.wordpress.com), que me emociona. Me emocionam. Tanto a amizade quanto o presente.

O futuro sombreava o presente, como o sol varando a folha de videira, translúcida e perpassada de pequenas veias, numa confusão de linhas sem desenho certo.